Puto velho
Nasci numa solarenga tarde de setembro. Um dia bom para nascimentos, recordou a anciã da família. Olhou para mim e disse: é um velho, é um bebé velho!
Assim me sentenciou e assim ficou. Desde cedo recordo os segredos entre dentes, tem cara de velho, pobre coitado.
A minha mãe amava-me ainda mais na aflição de me proteger.
Era o puto velho, nunca ouvi o meu nome sem ser da boca da minha mãe.
Não sabia o que era um velho. Mandavam-me ir ter com os velhos ao largo. Olhava para eles e não os via diferentes de mim nem de ninguém.
Sorriam-me e diziam-me, tudo passa, vai brincar miúdo.
Lá se habituaram todos e cresci com a maralha.
Veio a guerra e alistei-me. Queria lutar pelo país, eu e os outros cá da terra. Não passei da inspeção, dava azo a distração, desculpou-se o funcionário.
Foram todos os homens novos, fiquei eu, as mulheres, os mesmo velhos e as crianças.
Tempos felizes, mas nem a falta de homens me fez conseguir arranjar uma mulher. És como um irmão, ouvia a cada tentativa.
Regressaram os que tiveram sorte, mas já não eram os mesmos. Rostos envelhecidos, olhares parados, lágrimas nos que nunca choram. A guerra vergastara-os numa punição sem fim à vista.
Um dia detive-me no reflexo de um vidro. Uma cara que lembrava alguém a observar-me e eu curioso a corresponder.
Aproximámo-nos a medo e no último instante não fugimos. Sorri para ele e ele para mim. Levei a mão ao bolso para lhe mostrar a foto da minha mãe. Ao mesmo tempo viramos as fotos. Assustei-me, era para a minha mãe que ambos olhávamos.
Um grito abafado fez-me circular de novo o sangue. Ele era eu. Há anos que não me olhava ao espelho. Não precisava, a minha figura já eu a conhecia.
Mas agora era igual aos outros! Tinham envelhecido e eu sempre fui velho. Abracei todos os que encontrei, tropeçando ébrio de uma alegria que nunca sentira.
Riam-se, ouvi-os ao longe…
Corre, corre…
O puto velho enlouqueceu!
Conto de Ana Caçapo – Co-fundadora da Cabelos Brancos
