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Somos velhos mas não somos avós

Existem dias comemorativos para tudo e mais alguma coisa. Esta quarta-feira, 26 de julho, celebra-se o “Dia dos Avós”,  e mais uma vez vamos afunilar o processo de envelhecimento na construção de uma vida com descendência.

Ser velho não é ser avó ou avô. O termo avós é um estereótipo que é aplicado mesmo quando não temos filhos e netos. Quando ia visitar uma querida amiga no ”lar” onde residia as suas funcionárias tratavam todos os velhos por avós. Insistiam em chamar-me de neta, apesar de ter explicado inúmeras vezes que éramos amigas, sem qualquer laço familiar. Ficávamos ofendidas com a assunção de que uma amizade genuína e próxima, entre duas pessoas com uma diferença de idade de 60 anos, fosse algo bizarro e inverosímil na mente de outras pessoas.

Estas representações estereotipadas são redutoras e preconceituosas porque colocam todas as pessoas de uma certa idade, num papel social que não corresponde à verdade e não é definidor da identidade individual e coletiva de nenhum ser humano.

A linguagem que utilizamos de uma forma banal e inconsciente está imbuída de estereótipos e estigmas. Gostamos de compartimentar, rotular, colocar tudo em gavetas. Temos rótulos com conotações pejorativas para todos os contextos: solteirões, viúvos, órfãos, deficientes, delinquentes, ciganos, refugiados, entre outros.

Há uns tempo foi-me relatada uma situação de alguém que está perto dos 65 anos, com uma vida social e profissional intensa. Frequentemente perguntam-lhe quantos netos tem. Esta mulher tomou a opção deliberada e consciente de não ter filhos. Podia mas não quis. Isto é tão violento e desumanizador como, por exemplo, assumirmos que os muçulmanos são terroristas, que os pretos são burros e inferiores, que as mulheres são alvo de assédio sexual porque provocam os homens com as suas roupas ousadas…

Tive avós que marcaram profundamente a minha vida. Amaram e foram amados.

Contudo, esqueci-me de os ver além da condição de avós: desconhecia as suas inquietações, esperanças, amores e sonhos, desconhecia como eram enquanto pessoas inteiras.

Não posso recuperar esse tempo perdido, mas posso lutar para que todos nós sejamos abraçados como seres singulares que merecem ser humanizados e respeitados, independentemente da idade.

E se alguém disser que é avó ou avô, que se define por este papel, não é algo que devemos considerar amoroso ou merecedor de aplausos. Este papel pode fazer parte da vida, mas não é a VIDA.

Texto de Luísa Pinheiro, Co-fundadora da Cabelos Brancos.

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“Cala-te e ama-me”.

Esta obra de Mário Belém aborda um dos grandes tabus da sociedade: “a noção que à medida que as pessoas vão envelhecendo as suas opiniões e sonhos deixam de ser consideradas importantes e respeitadas como na fase da juventude.”

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