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Solidão anunciada

“A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e parece como um tributo indiferenciado do planeta. Parece como uma coisa qualquer.”

— Valter Hugo Mãe, A Desumanização

Nesta época do ano existe uma propensão quase obrigatória para nos lembrarmos das pessoas que vivem situações de vulnerabilidade, fragilidade, solidão e isolamento social. A solidão dos idosos acaba por se transformar num cliché natalício para puxar uma lágrima ou uma ação de caridade pontual.

Em primeiro lugar, é necessário distinguirmos e refletirmos sobre a solidão e o isolamento social. São dois sentimentos e realidades distintas mas que habitualmente estão interligados.

O sentimento de solidão é um lugar despovoado de pessoas e afetos. A falta de contacto humano e interação social provoca uma sensação de abandono e tristeza.

Porém, o facto de alguém estar só não significa que sinta solidão. Existe o “eu individual” e o “eu coletivo”. Quem não conseguir estar sozinho consigo próprio não se ama verdadeiramente. No âmbito coletivo, a nossa existência só é validada perante o reconhecimento dos outros, quer seja a nível familiar, profissional ou social.

A definição de solidão é ampla e subjetiva. A solidão escolhida é um estilo de vida, uma afirmação de liberdade e individualidade. Viajar, ir ao cinema e viver só sem o desejo de assumir um compromisso, são alguns exemplos que retratam esta realidade contemporânea. Estas pessoas não são desprovidas de contacto social, apenas sentem-se confortáveis ou  felizes em viver momentos e experiências que não são compartilhadas.

Este tipo de solidão pode ser uma escolha deliberada ao longo de todas as faixas etárias.

“Sou viúva e sem filhos, mas esta condição nunca me impediu de desfrutar da vida. Escolho todos os anos passar o natal sozinha, porque apesar de ter convites de um ou outro familiar mais próximo, não me parece algo genuíno. São pessoas com as quais já tive vários problemas, tendo inclusive sido tratado em alguns momentos como uma pessoa destituída de vontades e direitos. Prefiro estar só na minha casa, livre das falsas caridades e alívios de consciência.

P.A, 76 anos

A solidão involuntária é uma realidade que temos de enfrentar porque não temos opções. Passar esta altura do ano sem poder celebrar a comunhão da família, do amor e esperança, é um quadro que atinge especialmente pessoas com idade avançada. Tentar passar ao lado da febre natalícia é quase impossível: somos bombardeados de todas as formas imaginárias sobre a magia e alegria do natal.

“Nasci em Angola e vim para Portugal quando já era um homem adulto. Sou solteiro e sem filhos e já fui uma pessoa sem abrigo. Não tenho laços familiares e há muitos anos que passo o natal sozinho no meu quarto alugado. Claro que esta altura ainda é mais dura para mim. Tudo me faz lembrar os que já partiram, os que nunca chegaram a aparecer, a vida que me escapou da palma das mãos…”

F.S, 65 anos

O número de idosos a viver sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade em Portugal quase triplicou nos últimos cinco anos, segundo os dados dos Censos Sénior recolhidos pela GNR. O estudo, realizado no mês de Abril de 2016 em todo o território nacional, apurou que o número de idosos sinalizados nestas condições aumentou de 15.596, em 2011, para 43.322 este ano.

O isolamento social é causado por múltiplos factores. A grande ruptura surge na altura da reforma. Familiares, vizinhos e amigos vão partindo. O mundo que sempre conhecemos começa a desabar. Se tivermos filhos ou netos, ainda somos pais ou avós, mas se esta condição não existir, passamos de pessoas a velhos invisíveis. Famílias desestruturadas, emigração, afastamentos e desentendimentos, o nosso fado e escolhas individuais ao longo da vida, também são circunstâncias que se refletem neste período festivo.

“Vivi emigrado durante 35 anos em França. Tenho três filhos da minha mulher que faleceu há 12 anos. Sempre vivemos separados. Era marido e pai quando vinha de férias duas ou três vezes por ano. Com a morte da minha mulher, os laços com os meus filhos ainda ficaram mais fragilizados. Reformei-me e decidi regressar. Sinto-me um estranho neste país. Em Portugal sou considerado um emigrante e para os meus filhos um pai ausente. Nem português, nem francês, sou alguém, que de uma forma inconsciente escolheu a solidão como companheira.”

A.P, 70 anos

Afinal o que é esta solidão anunciada? Pode ser combatida ou é fatalmente o destino de quem envelhece?

Os valores que celebramos neste período devem ser praticados 365 dias por anos. O amor e solidariedade universais têm que ser vividos no quotidiano. Não têm que ser gestos opulentos, mas pequenos actos que somados ao longo do ano, podem efetivamente fazer a diferença no combate à solidão.

Dicas para combater a solidão anunciada:

  • Ter em mente que as nossas escolhas ou actos em todas as fases da vida, têm reflexos na forma como envelhecemos ou vivemos a fase da velhice;
  • Procurar estar presente ou próximo de familiares ou amigos que estejam numa idade mais avançada. Um almoço, um telefonema, um programa em conjunto, são pequenos sinais de preocupação e bem querer;
  • Priorizar a gestão do tempo. Apesar de vivermos vidas aceleradas, se não soubermos usar o nosso tempo para estar com aqueles que amamos, mais tarde virá o arrependimento e a impossibilidade de recuperar o tempo perdido;
  • Combater o idadismo (preconceito com base no fator idade) pelos mais velhos e acima de tudo pelo nosso futuro eu;
  • Cumprimentar os vizinhos, e no caso de serem pessoas idosas, ficar disponível para situações de apoio. Ajudar a trocar uma lâmpada ou um sorriso são pequenos gestos de humanidade que têm um impacto positivo e transformador;
  • Interiorizar que o envelhecimento não é um processo dos outros. A passagem dos anos é a condição humana que nos permite viver todos os anos um novo natal;
  • Manter a curiosidade, criatividade e aprendizagem ao longo da vida;
  • Sonhar e amar até ao fim.

Estas dicas não têm prazos de validade. Lutar contra a solidão anunciada é lutar por um presente e futuro melhor para toda a humanidade.

Luísa Pinheiro, Co-fundadora da Cabelos Brancos

Solidão (também conhecida como isolamento subjetivo) tem a ver como as pessoas percecionam a sua experiência e se  se sentem isoladas ou não.

O isolamento objetivo envolve medições quantificáveis, como a dimensão  da rede social (e a sua frequência de envolvimento), disponibilidade de transporte e capacidade de aceder a recursos e informações.

O isolamento é uma epidemia crescente:

Mais de 8 milhões de adultos com 50 anos ou mais são afetados pelo isolamento. Os riscos para a saúde devido ao  isolamento prolongado são equivalentes a fumar 15 cigarros por dia.

O isolamento em idosos raramente é causado por um único evento.

Factores de risco:

Transportes: Mobilidade reduzida devido à falta de opções; Carta de condução caducada.

Problemas de saúde e bem estar: Fragilidades e dificuldades no âmbito da mobilidade e audição; Ausência de cuidados de saúde mental.

Períodos de transição e perda de papéis sociais: Reforma; Perda do cônjuge ou amigos; Tornar-se cuidador.

Barreiras Sociais: Idadismo; Falta de recursos e criatividade para a integração e ocupação de pessoas mais velhas.

Desigualdade de oportunidades: Pobreza; Viver num meio rural; Grupos marginalizados (questões raciais e étnicas, minorias, LGBT, etc.)

Fonte: AARP Foundation

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