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Rosa, a encadernadora menina que se apaixonou pelo mundo dos livros

Foto de Nuno Martins

As origens da arte da encadernação remontam ao Império Romano aproximadamente no séc. I/II d.c. De uma forma generalista podemos descrever a encadernação como “a operação que tem por fim a conservação dos livros e consiste em coser as folhas de um modo especial, reuni-las, apará-las e cobri-las com uma capa consistente.”

Rosa da Costa é uma das últimas encadernadoras de Lisboa e do país. Começou a aprender esta arte milenar quando tinha cerca de 12 anos. Na altura vivia-se sobre um regime ditatorial, o Estado Novo, e ser menina mulher com aspirações a um ofício dominado pelo universo masculino, era um ultraje incomum para a época. A menina que veio da Beira Alta para Lisboa, para trabalhar como criada de servir, transformou-se numa mulher lutadora e reivindicativa, dos seus sonhos e direitos.

Esta nostalgia à portuguesa, com tradição milenar, tem uma expressão viva e valorativa em países como Itália, França e Inglaterra. Mas encadernadora como a Rosa, só há uma, é nossa, e está disponível para ensinar.

Rosa, é encadernadora, uma profissão quase a desaparecer. Como começou esta aventura?

Chamo-me Rosa Félix da Costa e nasci a 1 de maio de 1955. Sou de Carregal do Sal, do distrito de Viseu, fiz lá a quarta-classe.
Cheguei a Lisboa com 10 anos, fui para casa de uma tia. Os meus pais viriam mais tarde da província.
Nunca quis vir, não tinha o sonho de Lisboa. Adorava andar com o meu pai no campo, a podar as árvores. Só nunca gostei de colher feijões. [risos]
Vim de comboio, foi a minha estreia, lembro-me de trazer um vestido nylon branco e chegar a Lisboa com o vestido todo preto, do carvão.
Fui colocada a servir numa casa de uma senhora em Campolide. A patroa chamava-me às 4 horas da manhã para lavar a roupa de cinco crianças. Pelas 7 horas já servia os pequenos-almoços.
Eu tinha 11 anos, também era uma criança.
Uma vez a patroa deu-me uma bofetada, fiquei revoltada, saí porta fora com a mala às costas para não regressar. Quando cheguei a casa levei também, mas bati o pé e não fui mais.

E quando conheceu o mundo da encadernação?

Foi depois do estalo! Com 12 anos estreei-me a trabalhar ao balcão, em Campo de Ourique, numa encadernação. Comecei também a desmanchar livros e a colocar por ordem os fascículos. Havia muito trabalho na altura, encadernava muitas revistas, como a Flama, revistas de decoração e livros do tio patinhas.

Gostou da experiência?

Gostei, estava num mundo de livros que não tinha acesso. Tirando os livros da escola, que eram emprestados, não havia mais livros em minha casa.
Fiquei à experiência 15 dias e passei a efetiva. Foi aí que aprendi a encadernação.
Era tudo homens, ainda hoje há poucas mulheres na encadernação. Aprendi vendo, a curiosidade e o gosto de ver o livro velho e depois desmanchá-lo, cosê-lo. Como era mulher não me queriam ensinar. À hora de almoço é que é aprendia com um senhor que foi muito meu amigo.
Saí de Campo de Ourique, porque havia um empregado que foi trabalhar para a Imprensa Nacional e como eu me dava com ele, o patrão acusou-me de enviar os clientes para o outro. Com 14 anos vou a tribunal e nada se provou.
Não havia condições para regressar, saí de lá e fui para a Imprensa Nacional. Depois vim para onde hoje estou, que na altura era de dois sócios, que se zangaram.
Eu tinha 16 anos e o dono da oficina decidiu comprar uma máquina nova. Como não tinha o dinheiro todo eu peço ao meu pai 1000 escudos, o que na altura era muito dinheiro.
O patrão entretanto vai-se embora para África. O meu pai ficou muito preocupado com o dinheiro, porque ainda faltavam 500 escudos da dívida.

E o que é que resolveu fazer?

Decido ficar com a oficina, mas eu só tinha 17 anos e decidi fazer a emancipação. Convenci o meu pai a muito custo. Obtive a emancipação plena, na altura era só aos 21 anos, e fiquei com a oficina em meu nome.
E começou aí a batalha para arranjar os 500 escudos para pagar ao meu pai. Não sabem o que foi ouvir o meu pai todos os dias a lembrar-me dos 500 escudos e a arregalar-me os olhos!
Os outros funcionários, três homens, queriam ficar com a oficina e não gostaram de ficar uma mulher a mandar. Eram machistas e disseram que nunca iriam ser chefiados por uma mulher, ainda por cima uma miúda, e foram-se todos embora.
Acabei por ficar sozinha, trabalhava de dia à noite e consegui pagar ao meu pai!

Foto de Nuno Martins

Havia muitas mulheres encadernadoras?

No meu tempo não havia, só costureiras, cosiam os livros.
Só conheço uma encadernadora completa que trabalha o livro do princípio ao fim. É a Maria.
Em Lisboa, hoje, só há dois encadernadores de loja, eu e mais um. É uma arte em extinção. Já não há aprendizes, é preciso um ano para aprender o ofício.
Na altura havia a escola Espírito Santo, muitas vezes vinham cá “estagiar”. Eu recebia sempre os jovens, gostei sempre que os jovens se interessassem. Gostava muito de ensinar.

E como foi mergulhar no mundo dos livros?

Foi uma sorte ter vindo para os livros, estava neste mundo e lia todo o tipo de livros, desde história a romance. A paixão do livro ficou. Ofereço sempre livros, desde crianças a adultos. A paixão passou para as minhas filhas. Não consigo deitar um livro fora.

Como é o trabalho da encadernação?

Na encadernação trabalhamos com tudo o que é natural. Azeite para limpar tudo, vinagre para limpar as peles, a água mancha, a clara de ovo também limpa e serve de mordente para agarrar o ouro na pele.
Há a encadernação simples, à inglesa, à francesa, meia inglesa com ou sem cor, a meia francesa tem relevos. Há a inteira de pele. O ouro doura as folhas, mas nem se pode respirar quando se está a trabalhar com ouro!
Hoje trabalho para particulares. A Assembleia da República e a Torre do Tombo têm encadernadores próprios. Os antiquários eram clientes, mandavam fazer tampos de secretárias e escadotes de bibliotecas, que também aqui faço.

Foto de Nuno Martins

Há algum livro especial que lhe tenham encomendado?

Muitos, muitos, muitos. Restaurar livros muito estragados é um trabalho muito moroso e complicado, utilizo papel de seda.
Tenho livros em todas as partes do mundo, Austrália, Bélgica, França, Inglaterra, etc.
Havia um escritor que vinha cá muito, não era português. Eu tinha um melro ele gostava muito do melro, só sabia essa palavra em português.
Um livro especial… um livro que fiz para o Vaticano. Um administrador de Cabora Baça veio aqui através de um padre dos Jerónimos que nos conhecia (eu e o meu marido, que trabalhava comigo), e ficámos boquiabertos com o pedido.
Já tinham passado por países com tradição, como Itália, Espanha, França e ninguém tinha conseguido fazer.
Fomos para férias a pensar como fazer a peça. Dentro do livro tinha que existir uma caixa para as relíquias do Papa Pio XII.
O difícil foi fazer a caixa dentro do livro para meter as relíquias. Foi muito complicado. Foi num agosto, há 15 ou 16 anos, até passou na televisão. Tivemos de arranjar um papel especial, branco, e foi escrito à mão.
O livro está exposto no Vaticano.

Revele-nos o seu sonho…

Se um dia me saísse o totoloto fazia uma escola, é o meu sonho, que mantenho.
Quando o senhorio aumentar a renda tenho que fechar a oficina.
Vou doar tudo ao Centro Cultural de Currelos, na minha terra. Já lá tenho uma sala, fizeram-me a proposta e vou lá dar aulas.
Não quero ir para lá viver, quero ir dar aulas.
Aqui não tenho muito espaço mas gostava de ensinar uma ou duas pessoas. Não se aprende num dia ou dois.
Penso que esta arte não morre, há sempre um ou dois que ficam, mas é triste o governo não dar valor às artes, se não dão às outras, quanto mais a esta…

Tem um plano para a sua reforma?

Tenho vontade de ajudar, mas não tenho um plano para mim, enquanto me aguentar trabalharei. Sou nova ainda, queria continuar aqui, não acabar a encadernadora.
Não posso ir sempre à Beira Alta dar aulas, as viagens são muito caras, não podia andar sempre lá.
Se fosse em Lisboa era ouro sobre azul. Se o senhorio aumentar mais a renda, serão duas perdas muito grande. Perdi o meu marido recentemente, era perder o marido e depois a oficina, não quero que estas máquinas sigam para ferro, derretidas.
Tenho trabalho, quero ficar em Lisboa, vivo aqui desde os 10 anos. Gosto de ir à terra, mas sempre de regressar.

A sua profissão não é solitária?

Não, eu digo que não. É uma profissão que exige atenção, não podemos colocar os cadernos de pernas para o ar! [risos]
Não me sinto só, ganhei muito a vir para encadernação, adoro livros, adoro ler, antes lia todos antes de entregar aos clientes. Só ofereço livros. Adoro ler, passei isto às minhas filhas. Foram criadas aqui.
Nunca falharam livros em casa, de todas as formas e feitios.
Para mim a leitura toda serve, li agora uns livros do José Luís Peixoto, mas são muito tristes, já não quero ler mais. [risos,  N.R. : Somos fãs do autor]
Agora estou a ler sobre Lisboa, emprestaram-me. Não vou comprar livros!
Tenho também os meus pássaros, todos os encadernadores têm. Fazem companhia e não há o problema de andarem por cima do material. Fartam-se de cantar aqui ao sol.

Foto de Nuno Martins

Sente o peso da idade?

Não me sinto velha, fiz agora pela primeira vez uma caixa, nunca tinha feito, foi um desafio para um livro demasiado estragado.
Sou viúva recente, estou viva e bem, não tenho medo da idade.
Passei aqui 24 sobre 24 horas, quando havia urgências, eu e o meu marido, só saíamos para comer. Grávida, trabalhei noites inteiras, e a Alexandra nasceu calma, não é hiperativa [risos] e no entanto foi acelerada por mim até ao máximo!
O meu sonho é a oficina não acabar e que seja reaproveitada por outros.
Rentabilizar os 500 escudos do meu pai. [risos]

Encadernação Rosa

Rua Marcos Portugal, 18 C

1200 – 258 Lisboa

Telefone: 21 390 59 03

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