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Rita Redshoes e Manuel Lucas Rosa

Foto de Rita Lemos

Rita Redshoes é cantora e compositora. Tem 33 anos e vive em Lisboa. Cultiva uma certa nostalgia pelos anos 50. Quando fala revela uma doçura determinada. Ao vivo a semelhança com Audrey Hepburn é ainda mais visível. Gosta da vida do campo, de apanhar nêsperas e comer caracóis. Coisas simples. Daquelas que só as verdadeiras estrelas conseguem apreciar.

Manuel Lucas Rosa tem 87 anos e dedicou a vida à marcenaria e carpintaria. Nasceu em Lisboa, depois mudou-se para Teixoso, uma aldeia da Covilhã. Foi aqui que aprendeu a sua arte. Regressou a Lisboa menino homem. Trabalhou muito e sempre com paixão. Fez muitos trabalhos para a Fundação Calouste Gulbenkian: cenários para o Ballet Gulbenkian e as estantes das famosas bibliotecas itinerantes. Adora revisitar o passado, mas vive no presente, com um olho no futuro.

Rita e Manuel são neta e avô. Têm uma relação cúmplice que se desenvolveu numa fórmula ancestral. As relações entre diferentes gerações crescem com o convívio regular, com a proximidade, com o estar e ser família. Desde miúda que Rita frequenta a casa dos avós. Neta e avô não conseguem perceber o afastamento entre os mais novos e os mais velhos. Nunca sentiram isso. A receita é elementar: manter a família unida. A partir daqui tudo se expande e renova.

Esta valsa decorreu no museu de arte moderna da Fundação Gulbenkian. Um sítio especial para ambos. Foi uma conversa com muitos queridinhos e sorrisos pelo meio – a Rita trata o avô materno por queridinho e docinho. Uma ternura.

Ei-los: Rita e Manuel.

Qual é a primeira memória que tens do teu avô?

Rita Redshoes – Tenho muitas memórias dos meus avós… Mas tenho uma recordação nítida de apanharmos nêsperas no verão, depois do almoço, no quintal da casa do meu avô.

Lembra-se do dia em que a Rita nasceu?

Manuel Lucas Rosa – Sim, ela nasceu na maternidade. [gargalhadas]

Rita – Foste à maternidade ver-me?

Manuel – Fui… Mas não me recordo dos pormenores. Já me começa a falhar a memória.

Rita – Também já foi há 33 anos! [risos]

Falem-nos sobre o vosso percurso profissional.

Manuel – Quando fiz a quarta classe fui aprovado com distinção. Nessa altura o ensino era muito mais completo e exigente.

Depois de concluir os estudos fui aprender o meu ofício. Todos os dias deslocava-me a pé de Teixoso (a aldeia onde vivia) até à Covilhã para ir trabalhar nas oficinas de marcenaria. Percorria 14 km por dia a pé. Mas tive a sorte de aprender a minha arte em oficinas muito boas.

Uma das muitas recordações profissionais marcantes tem a ver com a Fundação Calouste Gulbenkian.

Trabalhava regularmente com o Ballet Gulbenkian na construção dos cenários e também construí as estantes do serviço de bibliotecas itinerantes.

A minha vida foi a marcenaria e carpintaria. Ainda tenho em casa móveis feitos por mim, são móveis bons, móveis que duram mais do que uma vida.

A Rita quando era mais pequena perguntava-nos constantemente, a mim e à avó (que já partiu há 10 anos) se um dia quando morrêssemos, ela podia ficar com a mobília do nosso quarto. Adorava e ainda adora os meus móveis.

Rita – Com 14 anos fundei com o meu irmão uma banda de garagem, editámos um disco e fartámo-nos de dar concertos pelo país. [riso]

Como estava num liceu normal decidi ir estudar música. Fui para a Escola Superior de Música. Detestei. Vim-me embora.

Depois andei um ano sem saber muito bem o que fazer… No ano seguinte, inscrevi-me em psicologia clínica – curso que finalizei já há alguns anos.

Entretanto, o David Fonseca, convidou-me para ser pianista na banda de suporte dele ao vivo. Estive lá 6 anos.

Até que decidi ir fazer os meus discos… Agora, já vou no meu terceiro álbum a solo.

Como é que foi crescendo a vossa relação?

Rita – Sempre vivemos próximos, sempre convivemos regularmente. Lembro-me de depois da escola eu e o meu irmão irmos para casa dos meus avós.

Manuel ­ – A nossa relação foi sempre boa. Mas ela era um bocadinho reguila… [risos]

Foto de Rita Lemos

Rita – Quando era mais pequena odiava a escola. Os meus avós ajudavam-nos com os trabalhos de casa enquanto esperávamos que a nossa mãe nos fosse buscar.

Odiava especialmente os trabalhos de matemática. O meu avô ajudava-me com os números e confesso que era muito paciente… [risos]

Aliás, há uma história engraçada, que retrata o meu temperamento reguila: houve um dia em que o meu avô me tentava ajudar com a matemática e parece que fiquei muito enervada chegando ao ponto de ripostar “ó meu estú (pausa) pidinho!”. [gargalhadas]

Manuel: O teu irmão era mais meigo [risos]. O meu neto já se casou e tem um filho. Já sou bisavô.

Sentes que foste influenciada pelo teu avó, nas tuas escolhas, gostos e afetos?

Rita – Ele e a minha avó foram dois avós muito presentes. No verão passávamos parte das férias grandes com eles. O meu avô ensinou-me a andar de bicicleta, arranjava-me as bonecas (eu tinha por hábito operá-las e depois deixavam de funcionar) e de certa forma a maneira como ele encarava o trabalho também me influenciou. Era muito trabalhador, muito correto, muito certinho.

E o teu imaginário artístico…

Rita – Sim, também fui influenciada por toda esta convivência. A minha avó era costureira e o ambiente da casa tinha todo um ar ainda muito “anos 50”. Essa estética ficou presente em mim através deles. Tinham uma grafonola e rádios. A grafonola está agora em minha casa.

Têm rotinas de convívio ou estão envolvidas em alguma atividade comum…

Rita – O convívio é frequente. Por exemplo, ainda hoje fomos juntos à festa de natal do meu sobrinho/bisneto.

Queria e quero fazer um livro sobre o meu avô. Esta vontade acabou por proporcionar tardes de conversa (que aconteceram recentemente) sobre a sua história de vida. Digamos que foi entrevistado por mim.

Manuel – Costumávamos ir para a praia apanhar caracóis. Íamos todos na minha carrinha.

Rita – E tu a conduzir eras muito “maluco”! [risos]

Atualmente existe um afastamento entre os mais novos e mais velhos. Chegamos a um ponto em que estas relações que outrora eram naturais e espontâneas têm de ser promovidas através de projetos intergeracionais. Sentem que a família e a comunidade devem trazer até si de novo essa responsabilidade?

Rita – Pessoalmente, nunca senti esse afastamento. Felizmente. Nem da parte dos meus avós, nem de nós em relação a eles.

Relativamente às famílias, a situação é cada vez mais complicada… e não são fáceis as soluções. É verdade que há muitos idosos sozinhos, no entanto, existem muitos filhos que se afastam dos pais porque têm que ir trabalhar para longe.

Nós tivemos a sorte de conseguirmos ficar todos juntos, portanto, para nós esse apoio foi sempre possível.

Acho muito triste a realidade de se envelhecer só. A vida já pode ser solitária… e numa fase final da vida se a pessoa estiver ainda mais sozinha, essa solidão deve pesar o triplo.

As instituições são precisas, obviamente. Acho que devem ser humanizadas, porque nem todas o são.

Porém, o ideal para mim, será sempre ter a família por perto.

Manuel – Quando era mais novo as famílias eram maiores pelo que o convívio se dava com pessoas de todas as idades. Era uma convivência natural.

Foto de Rita Lemos

Pensas na velhice?

Rita – Penso… assusta sempre um bocado esta ideia de ficar sozinha. Às vezes digo ao meu irmão que é bom não se ser filho único.

Eu ainda não tenho filhos, mas preocupo-me com isso. Gostava de ter dois filhos, também por causa da velhice. Parece um bocado egoísta e provavelmente é. A ideia de termos filhos, uma família e o mesmo para eles.

Sei que eu e o meu irmão enquanto continuarmos vivos vamos estar sempre unidos e próximos. Mesmo velhotes, vamos continuar a apoiar-nos mutuamente.

Acho que faz parte do sentido da vida.

Como é que gostavas de viver esta fase…

Rita – Gostava de viver no campo e com autonomia. Não que ache que as pessoas mais velhas sem autonomia possam pesar. Mas quando somos nós acho que acabamos por ter sempre esse pensamento. Gostava de continuar a ver e a ler.

O facto de envelhecermos não tem que alterar a nossa forma de ser e estar. Quero continuar a ser eu.

Manuel – Ainda hoje gostava de voltar atrás.

Rita – Ai é? Porquê?

Manuel – Gostava de voltar a viver a vida que vivi…

A nostalgia de querer regressar a um tempo onde foi feliz….

Manuel – Sim. Agora lembrei-me das Festas de Santo António, de ver os ranchos no Marquês de Pombal – no final do desfile íamos para a Praça da Figueira. Muitas memórias e saudades.

Rita – Os meus avós também me deram a conhecer a Lisboa de antigamente. Este conhecimento dá-me uma perspetiva completamente diferente. O meu avô ainda fala muito sobre essa Lisboa do passado.

Quando era mais novo conseguia imaginar-se velho?

Manuel – Não pensava na velhice. Reformei-me cedo, mas comecei a trabalhar com 12 anos. Após a reforma a vida não parou.

Qual é a vossa opinião sobre os atuais modelos de apoio à terceira idade (p. ex. lares, centros de dia).

Manuel – Há 70 anos que vivo na minha casa. Sempre gostei muito da minha liberdade. E quando penso num lar penso que iria ficar privado das minhas vontades. Deixaria de ser livre.

Rita – Os lares podem ser indicados para pessoas que não têm família e que às vezes ficam incapacitadas. É uma solução possível.

Os centros de dia, acho uma coisa diferente e bastante positiva. Há pessoas que ainda têm autonomia que lhes permite permanecer em casa. Esta solução mantém as pessoas ocupadas e dá-lhes a possibilidade de construírem amizades novas.

A minha mãe dá aulas de pintura em regime de voluntariado num centro de dia e percebo através da experiência dela que é um modelo muito positivo. As pessoas podem ir para casa sozinhas, mas no próximo dia continuam ocupadas.

Ao longo da nossa caminhada vamos vivendo com perdas e ganhos. Perder um mundo e pessoas que nos eram muito queridas, ou ganhar conhecimento e maturidade. Como é que se gere isto?

Manuel – Já aprendi e ensinei muito. Quando passo por determinados sítios de Lisboa fico emocionado. Já perdi muitas pessoas. Não é fácil. Mas não estou preso no passado. Gosto de me manter informado.

Foto de Rita Lemos

Consegues fazer este exercício (gerir perdas e ganhos) e projetar-te na idade do teu avó?

Rita – Eu sou péssima a gerir perdas. Fácil, não vai ser… O que vale é que as pessoas vão renascendo. Mas confesso que sou um bocado como o meu avó – não me projeto muito. Vou vivendo o dia a dia.

Um sonho…

Manuel – Voltar a ter carta para poder conduzir de novo.

E ganhar o totoloto. [risos]

Rita – Uma casa no campo. [suspiro]

Sim, uma casa no campo. Com a família.

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