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Nazaré, a diva singular

Foto de Ana Gomes

A definição de diva para Nazaré Pinela é de alguém que quando entra numa sala a ilumina com um brilho especial. É impossível não notar a sua presença. Singular no estilo, irreverente na atitude e afável no trato. Nasceu há 51 anos em Lisboa. Desde então tem trilhado o seu percurso com uma marca distinta e genuína. Nunca se encaixou nos padrões ou na moda. Estudou ballet, viajou, experimentou sapateado, inaugurou uma loja vintage e integrou a formação original da banda Capitão Fantasma como baixista nos finais dos anos 80. Casada e com dois filhos vive e respira o rock n” roll. Em 2001 Nazaré e o marido Eduardo Pinela decidiram abrir uma loja de tatuagens na vila de Sintra. Foi aqui que a entrevistámos e percebemos que vive e sente o passar dos anos com a autenticidade de sempre. Rodeia-se de gente jovem, veste peças de roupa com história e tem o corpo tatuado. Tem horror à normalidade, ao ser-se comum. Nazaré é um obra de arte viva. Menina excêntrica, do princípio ao fim.

Podes contar-nos como é que decorreu a tua infância? Como era a criança Nazaré?
A criança Nazaré foi uma criança muito feliz. Sou filha única, fui muito mimada, era a menina da mamã e era maria rapaz. O pior que me podiam fazer era no meu dia de anos me vestirem um vestido e sapatos de menina. Era o pior dia de sempre da minha vida. Sempre fui mega rapaz, zero feminina, bicicleta, bola, caricas, jogo do prego, … e feliz.

Quando é que começaste a gostar de coisas mais femininas?
Eu ainda sou muito “one of the boys”. Identifico-me com muito poucas raparigas, tenho poucas amigas, trabalho ainda hoje só com homens, sempre toquei numa banda só com homens. O meu mundo sempre foi o dos homens. São mais fáceis, têm mais a ver comigo e estou mais à vontade com eles.
A menina, como é que eu me tornei menina?… Apesar de ser maria rapaz eu era bailarina, dos 3 aos 17 anos fiz ballet. Cheguei a semi-profissional. Todos os anos dançava na temporada do Teatro da Trindade.
Havia uma luta entre ser rapaz e ser bailarina. Depois decidi deixar de ser rapaz e também bailarina para passar a ser uma menina.
Foi quando me mudei para Londres, aos 18 anos, comecei a ver coisas e miúdas giras.

Como é que olhavas para os velhos da tua juventude?
A minha mãe sempre foi velha, assim como eu sou uma mãe velha. Tenho um filho com 25 anos e outro pequeno ser com 10 anos. Sempre tive uma mãe muito mais velha do que as mães dos meus colegas e passa-se a mesma coisa agora em relação ao meu filho.
Fui educada religiosamente, na moral e nos bons costumes e agradeço imenso por isso porque o que sempre ficou da minha mãe foi que a educação é a única coisa que ninguém nos tira. A partir do momento em que conseguimos ser educados a lidar com qualquer tipo de pessoa, tudo o resto vem por acréscimo. Por isso acarreto com um visual que pode chocar ou sensibilizar muitas pessoas e eu consigo lidar com isso muito bem. Vivo bem com isso precisamente por causa da educação.

Foto de Ana Gomes

Pensavas na tua velhice?
Nunca pensei na velhice. Nunca pensei ter 50 anos. Sempre respeitei as pessoas mais velhas, embora nunca me tenham olhado com grande apreço. Nunca pensei em ser velha e ainda hoje custa-me imenso a acreditar que tenho a idade que tenho.
A maior parte dos meus amigos da minha idade, ou morreram ou estão todos lixados ou fechados em casa. Hoje em dia, a maior parte dos meus amigos são pessoas com a idade dos meus filhos.

Quais eram os teus sonhos? Aspiravas ser que tipo de pessoa?
Nunca aspirei nada, assim como não aspiro nada para os meus filhos. O meu pai e a minha família sempre tiveram aquela coisa dos sonhos: um curso superior e o doutoramento. Eu sempre me estive nas tintas para isso. Deixei de estudar bastante cedo porque não aprendi muito na escola. Andei na António Arroio que foi a melhor escola, foi onde conheci o Pinela (marido) e onde eu tirei a minha formação artística.
Nunca tive aspirações, fui seguindo o que me foi aparecendo e fiz mil coisas. Mesmo hoje não me assusta se esta loja (Bang Bang Tattoo) deixar de dar porque tenho capacidade e vontade de fazer seja o que for.

E o que foste fazendo? Como foi o teu percurso?
Primeiro, entre os 15 e 16 anos entrei numa escola de circo e comecei a fazer sapateado com o Michel. Trabalhámos imenso tempo juntos, às vezes fazíamos 2 e 3 espetáculos por noite nos café concertos.
Tinha sempre alguém que me ajudava. Por exemplo, o Júlio Isidro, arranjava-me trabalho a fazer de Pato Donald nos Amigos Disney.
Quando fui para Londres fui tratar de crianças. Criei no mínimo meia-dúzia de crianças desde nascença. Mantenho amizades com essas crianças que agora têm 35 a 40 anos e vêm a Portugal visitar-me.
Voltei para Lisboa e decidi abrir a loja El Dorado com a Fernandinha. Fazíamos mensalmente as três feiras da ladra mais importantes da Europa (Bruxelas, Londres e Paris).
Depois formei uma banda com os meus amigos e comecei a tocar baixo nos Capitão Fantasma.

Sempre fostes excêntrica?
Sempre fui diferente. Já foi mais difícil e agora é mais fácil. Aqui em Portugal era muito complicado. Agora quanto mais velha melhor me sinto, como pessoa, a nível de confiança, de saber o que quero. Estou completamente à vontade, já não me chateiam certas coisas.

Nunca te sentiste discriminada pela idade?
Velha, maluca, toda tatuada? Não. Sempre me valorizei. Mesmo quando procurava trabalho, nunca me vesti de propósito para uma entrevista. É uma questão de autoestima e de confiança e eu nunca abdicaria de mim para ter um trabalho e ser infeliz.
Mas levei com muitas agressões, físicas, psicológicas. Numa altura que és mais nova reages de uma maneira e violentamente, e vivi bastante violência e agora lido com isso pacificamente.

Foto de Ana Gomes

Não achas irónico que a juventude atual, que teme muito a velhice, cultive agora o estilo vintage, que está colado à geração dos avós?
O que é irónico é que eu fui gozada a vida toda e agora de repente sou o máximo. Eu contrario isso, o que mais me horroriza é as pessoas pensarem que eu estou na moda!  A maioria das pessoas quer ser invisível, é giro ver pessoas giras, singulares. Para mim toda a base da minha vida, da minha roupa, do meu negócio, dos meus amigos, foi a música, o rock n” roll.

Tens uma ligação muito forte com as tuas peças de roupa…
Sim tenho! Eu já vendi imensa roupa, mas as peças fulcrais da minha vida nunca as vendi. Sei perfeitamente a história de cada peça. O concerto que fui com aquela peça, o país onde a comprei.

Imaginas-te com 80 anos?
Sim, espero não ter muitas dores e não estar muito senil!
Quero ir para a Tailândia. Assim que o meu filho crescer é para onde me imagino ir. Não vou deixar Sintra nem a minha casa, que é muito especial, é uma “home, not a house”, mas imagino-me num sítio super relaxado, com muito calor, com pessoas super simpáticas que sorriem e te acham espetacular e tu devolves isso. E sem nada, apenas um “pareo“ e uma mala sem batom e maquilhagem. É um sentimento de liberdade e muito bom e continuo a ser eu.

Envelhecer homem ou mulher é muito diferente. Sentes-te hoje menos atraente do que quando eras jovem?
Não! Acho que estou muito mais gira! Nunca me achei bonita e hoje olho para mim e gosto. Olho para as fotos de quando tinha 20 anos e acho piada, mas na altura não me achava graça nenhuma. Era uma pessoa especial, carismática e muito diferente. Aqui em Portugal não havia mais nenhuma! Nós lutávamos pela diferença.

Um conselho para se ir envelhecendo feliz…
Não sei… Eu vejo as pessoas muito infelizes, a maior parte das pessoas não faz o que querem e o que gostam. Porque têm medo de arriscar, ficam contentes por ser um número, por fazer parte de uma empresa. E eu nunca consegui perceber bem isso… Vão envelhecer como envelheceram os pais, os avós. As pessoas acomodam-se. Eu sou mãe e eu e o Pinela éramos muito criticados por levarmos o Ricardo (primeiro filho) a todos os concertos. Hoje é muito complicado, o nosso filho mais novo (Eduardo) não pode entrar nem nas matinés, mesmo comigo e com o pai. O Ricardo com 10 anos já punha música, o Eduardo não faz ideia o que isso é. Eu não me importo que me chamem maluca, até gosto. Vou continuar a dançar quando não há ninguém a dançar.

Agradecimentos:

Bang Bang Tattoo

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