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Mário, o artista por nascer

Desde muito cedo que desenhar é a sua verdadeira paixão. Cresceu numa família de artistas, o pai era artista plástico e a avó pintora que iniciou carreira quando tinha 60 anos. Diz que o talento pode nascer connosco, mas sem trabalho árduo nada se alcança.

Nos últimos anos, aventurou-se na arte urbana, pinta murais e alguns deles retratam pessoas mais velhas. As suas peças tentam fugir aos clichés. Rodeiam-se de uma história misteriosa, com detalhes subtis, que dão asas à imaginação. Querem perdurar no tempo e deixar uma mensagem positiva na comunidade que com estes se cruzam todos os dias.

É um criador que não pretende ter um estilo vincado. Adora experimentar novos desafios, testar-se constantemente. Quer continuar a fazer e ser mais, enquanto artista e pessoa. Mais do que o sonho de reconhecimento internacional, o eterno miúdo de Carcavelos, quer ser reconhecido no seu Portugal, país pequeno com cultura gigante.

Mário Belém, 40 anos, nasceu para reinventar-se.

Como é que foi a tua infância?

Foi aqui em Carcavelos. Foi ótima. Tive o privilégio de crescer ao pé do mar e estar sempre em contacto com a natureza. Cresci rodeado de família, avós e primos. Sempre fomos muito próximos.

À medida que ias crescendo quem é que admiravas?

Tive uma ligação muito forte com a minha avó.

Ela com 60 anos decidiu que queria ser artista e teve uma carreira brilhante até aos 84. Era insegura… Começou pelo patchwork, depois passou para a pintura de aguarelas, pintava sobretudo casas e igrejas de Carcavelos. Fazia exposições e safava-se muito bem. Era mesmo brilhante.

Como eu também tinha uma ligação com as artes, ela pedia-me para dar dicas e opiniões. Por outro lado, o meu pai era artista plástico.

Quando eras miúdo já sabias o que querias ser?

Tenho a perfeita ideia de ter uns 3 ou 4 anos, e um dia na escola dizerem: “O teu desenho está muito giro”. Sempre tive imenso prazer em desenhar e desenvolver este gosto.

Nasceste para ser artista?

As pessoas comentam: “Ah, tens imensa sorte porque nasceste com talento.”

Acho que o talento também é algo que se trabalha constantemente.

Entrei em Arquitetura, mas não tinha paciência para a parte técnica e projetos infinitos que nunca mais acabam. Fui para a Ar.Co e tirei Design Gráfico. Como tinha uma carga horária reduzida comecei logo a trabalhar, com 19 anos.

Nesta altura, aprendi a perceber como funcionava o mercado de trabalho.

Outra coisa que gosto imenso dos desenhos é dos projetos pequeninos.

Fazer uma peça numa semana ou em quinze dias.

Hoje em dia nesta área existem tantas ramificações possíveis… Já fiz um bocado de tudo. Comecei com o percurso mais comercial. Fazia ilustrações para agências de publicidade. Trabalhei numa empresa que hoje é equivalente da impressão digital, vinil e autocolante. Comecei a fazer sites, quando estes valiam muito dinheiro.

Sempre fiz muitos trabalhos como freelancer.

Também tive um atelier de design, fotografia e ilustração.

Em 2010 comecei a trabalhar sozinho. Deixei o atelier. Fritei completamente a pipoca com a cena comercial, sobretudo por causa da bolha de 2009. Do dia para a noite os preços praticados passaram para um terço.

De repente, estar a trabalhar para os outros para aquecer, não fazia sentido.

Estava a acompanhar pessoas que tinham um background semelhante ao meu e que estavam a fazer estas coisas de pintar na rua e ter exposições. Comecei a ficar entusiasmado com este novo movimento. Queria perceber como é que se fazia.

Os últimos 7 anos têm sido de transição.

Como é que saltas para fora do circuito comercial e começas a fazer trabalhos para o umbigo? Tive a sorte de conseguir transportar uma série de clientes e pessoas que já gostavam do meu trabalho para esta nova existência que ainda estou a tentar perceber.

Tenho estado com a sorte gigante de ter trabalho suficiente para conseguir minimamente escolher as coisas mais fortes.

The Dragon Store, China

Quais são os trabalhos que gostas mais de fazer?

Sempre gostei de descascar problemas novos. Gosto de novos desafios.

Quando comecei a pintar na rua, utilizei latas de spray. Nunca tinha feito graffiti na vida. De repente é uma cena nova. Aquilo não está a tocar na parede. Tens que carregar e ver como é que se faz. Agora estou a aprender escultura, a trabalhar as camadas de madeira.

Como é que gostavas de ser reconhecido?

Estás num mundo em que há quinhentos mil cães a um osso, há cada vez mais concorrência. Das poucas coisas que te destacam é o contexto onde estás e vives.

Acho que existe uma coisa que só agora está a começar a mudar um bocadinho, sobretudo na minha geração, que tem a ver com o orgulho de ser português. É uma coisa recente.

Uma das coisas que considero que é uma mais-valia, é que nós temos uma cultura gigante, para um país tão pequenino. Há imensos temas que se podem agarrar e reaproveitar e reinterpretar, como ponto de partida para fazeres as tuas peças.

Já percebi que me interessa muito mais ter sucesso aqui, do que a nível internacional.

Onde é que eu me vejo, o que quero ser?

Quero ser um artista reconhecido em Portugal.

Como nasceu a obra “Cala-te e ama-me”?

Umas das coisas que uso muito como ponto de partida são as expressões portuguesas e situações caricatas do quotidiano. “Cala-te e ama-me” foi adaptada da expressão “Cala-te e beija-me.” Tento fugir aos clichés e neste caso se usasse pessoas mais novas, aquilo tornava-se quase um anúncio, algo forçado.

Com pessoas mais velhas dá-lhe uma dinâmica de uma história que não se conhece.

A idade traz traços e experiência. Quando vês uma pessoa mais velha retratada sabes que aquilo tem uma história por contar. Gosto quando olhas para uma peça e há um mistério, algo que dá asas à imaginação.

Há muita gente a pintar na rua, e é um bocado indiferente eles pintarem em Portugal, ou em Nova Iorque ou na China, porque o que eles estão a fazer é um processo muito pessoal. Não critico minimamente, é o processo deles.

Mas quando estás na rua a pintar, vais-te embora e depois as pessoas que estão ali à volta é que vão ter que olhar para aquilo todos os dias.

Para mim, é importante pensar nisto antes de começar a pintar e deixar sempre uma mensagem positiva.

Quando pintas na rua interages muito com pessoas mais velhas. Há um percurso muito interessante que passa por chegar ao local no primeiro dia e montar o andaime e dizer bom dia a toda a gente. Ninguém te responde. Passados dois dias as pessoas começam a ver a pintura a sair e já te começam a responder ao bom dia. Passados três dias já começam a parar e a falar contigo. Ao fim de quatro dias já te estão a trazer bolinhos.

Daí ser importante deixar algo positivo.

Cala-te e ama-me

A arte pode servir para derrubar preconceitos e estereótipos. Esta consciência reflete-se nas tuas criações?

O artista deve usar a obra para exprimir coisas importantes e pertinentes que estão à sua volta, sem dúvida. Mas ao mesmo tempo acho que condicionas a tua obra no tempo.

As questões políticas e sociais que deram origem à tua obra acabam e a obra artística fica congelada num determinado período.

Para mim, criar sem esse tipo de preocupação permite que a tua obra viva mais tempo. No entanto, gosto de deixar nas minhas peças pequenos apontamentos, dicas e detalhes, que eventualmente podem vir a ser observados e interpretados.

Estes detalhes são o que tornam a obra completa.

Já tiveste algum momento em que sentiste “Estou a envelhecer”…

Existem duas respostas distintas.

Quando és pequenino tens aquela ilusão de que um dia vais crescer e tornar-te adulto. Isso não acontece. A prova disso é que o meu próprio pai faleceu quando tinha 77 anos e continuava uma criança autêntica. Sempre foi muito consistente na sua atitude.

Agora, o outro lado, é que começo a sentir falhas de memória, é uma coisa que nunca me tinha ocorrido. Começo a notar que tem a ver com o processo de envelhecimento.

Estou cada vez mais a fazer listas para não me esquecer das coisas.

Assusta-te o processo de envelhecimento?

Sim, assusta-me.

Se não pensares como vai ser a tua vida a partir dos 60 anos, porque agora há muitas garantias de que vais viver provavelmente até aos 80 ou mais anos, tens que pensar nisto. Por exemplo, agora estou solteiro e sem filhos. De repente, torna-se numa questão que me preocupa. Vou envelhecer sozinho.

Contudo, apesar de parecer uma afirmação egoísta, o facto de não ter filhos permite-me arriscar muito mais enquanto artista. Tenha esta consciência presente e estou grato por esta oportunidade.

Como é que achas que a sociedade olha para as pessoas mais velhas?

Começa por ser um tabu envelhecer. O nosso primeiro instinto é começar logo a falar em lares e residências. A decisão de ter de escolher uma estrutura de apoio, não passa por ti, passa por outras pessoas.

É algo que se chuta para fora, o que acaba por ser sinistro. Tive contacto com estas instituições de apoio e é uma realidade horrível, mesmo horrível.

Depois existem organizações como as Universidades Seniores, que necessitariam ser algo mais do que ocupação de tempos livres, deveria ser desmultiplicado. Devia ter uma saída qualquer.

A ideia da reforma imposta não faz sentido.

Quem são os velhos das tuas criações?

Os velhos são os sábios, têm um lado oculto que já sabes que está implícito.

Um dos meus artistas favoritos é o Almada Negreiros. E as peças dele que mais adoro são os painéis da Gare Marítima de Alcântara.

Retrata pessoas carismáticas portuguesas, peixeiras a carregar o peixe, podem ter idade mas não reparas nesse elemento. Fascinam-me as pessoas da labuta.

Na tua lista de amizades próximas tens pessoas de várias gerações?

Sim, tenho amigos de várias idades, talvez 10 anos mais novos ou mais velhos.

Mas dou-me mais com pessoas da minha geração.

Existe uma coisa que eu tentava combater muito com o meu pai que é um intervalo grande, um fosso geracional de mentalidades. A forma como vemos as coisas não se relaciona muito com as pessoas que têm mais 30 anos que nós. Isso é um facto importante. Estes intervalos de tempo acabam por nos desligar uns dos outros.

A minha geração ainda cresceu com a noção de respeito, inclusive pelos mais velhos. Algo que eu não noto tanto nos miúdos mais novos.

Já fui professor durante 2 anos, mas naquela altura percebi que não tinha a paciência necessária. Quero voltar a fazê-lo daqui a uns anos. Uma das coisas interessantes é que através do ensino estás sempre em contacto com pessoas mais novas. Acabas por aprender imenso, há uma troca de conhecimento.

Sentes que estás no auge da tua carreira?

Não. Quero crescer e fazer muito mais.

Ter objetivos e desejos e vê-los concretizaram-se é uma sensação maravilhosa.

Mas estou a anos-luz de onde quero estar. Só agora é que estou a aprender a pintar como deve ser. Tenho imensa coisa para aprender e fazer.

Quero aventurar-me mais na escultura. Todas estas coisas precisam de tempo para amadurecer.

O pior erro que há é achares que és muito bom, que já sabes fazer tudo bem e que ninguém te pode mostrar nada de novo.

A insatisfação é a força motriz do crescimento a nível pessoal e artístico.

Na área artística és obrigado a fazer um estilo reconhecível, se fazes muitas coisas diversificadas, as pessoas deixam de reconhecer o teu estilo e já não querem comprar.

Isto é perigoso porque ficas colado a um estilo e não te permite crescer.

Uma das coisas que me apaixona é experimentar coisas novas; estou-me nas tintas por não ter um estilo vincado. Quero desafiar-me, sempre.

Um sonho…

Gostava de trabalhar e criar impacto, deixar um pequeno legado, com as pinturas de rua, aqui, na zona onde cresci.

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