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Maria, a nova velha bonitona

Na infância era uma criança tímida que olhava muito para dentro, tinha uma alma sensível, um mundo interior cheio de muros. Maria Seruya, 36 anos, é agora uma mulher vibrante, genuína e ambivalente. Enche e ilumina espaços vazios, como a avó paterna. O lado artístico vem da avó materna, também ela retratista, mas recolhida na sobriedade. Estas duas figuras femininas marcariam o seu destino.

O projeto de pintura Velhas Bonitonas é uma espécie de afirmação pessoal, onde a criança introspetiva dá lugar à mulher artística com uma paixão arrebatadora pelas suas criações que ganham vida própria. Velhas que ousam ser quem querem, sem complexos nem culpas. Bonitonas porque não precisam de validação. Têm super poderes, como a sabedoria, confiança e liberdade de espírito. Maria, ainda não é velha bonitona, mas ambiciona um dia ser uma delas… Sorriso inabalável, com vontade de viver e amar mais… Ser mulher por inteiro.

Começamos por pedir que nos apresentes a tua pessoa…

Nasci no Estoril, somos três irmãs, vivi até aos quatro anos no Porto, depois a família regressou e ficámos a viver em Cascais. Sou uma mulher de 36 anos, divertida e curiosa. Quero ter todo o tempo, disponibilidade e liberdade para me realizar como artista. Aos 19 anos fiz um curso de um ano de Arte em Londres (Art Foundation Course) com o objetivo de criar um portefólio artístico para ingressar numa universidade inglesa.

Entretanto tive um acidente e acabei por regressar a Portugal onde acabei por concluir os estudos superiores na área de Design. Contudo, o meu interesse pelas artes não terminou aqui. Sempre me atirei para a frente. Tenho feito cursos de um ano nas mais variadas áreas: ilustração, desenho, pintura, joalharia e teatro clown e cerâmica. Levei estes cursos muito a sério e deram-me muito conteúdo para a minha arte de hoje em dia.

A nível profissional tenho trabalhado em agências de publicidade. Neste momento, estou num projeto novo em regime part time, sendo que o resto do meu tempo é dedicado às “Velhas Bonitonas”. Gosto deste equilíbrio.

Porque é que decidiste criar o projeto de pintura “Velhas Bonitonas”?

Aconteu por acaso, foi um processo espontâneo. Quando iniciei estas criações senti logo que não queria parar. O objetivo deste projeto é meramente pessoal. À medida que ia desenhando sentia que estas mulheres eram especiais. Passei a querer ser uma delas. O seu lema é “Ousar ser quem querem, sem complexos nem culpas.” Quero trazer esta liberdade para a minha vida. Elas são muitas personagens, eu própria como pessoa também sou um bocadinho uma personagem. Não deixo de ser genuína, mas gosto da performance e da teatralidade.

Quando andei no teatro clown não trabalhávamos personagens mas sim a nossa própria personagem. Trabalhávamos o nosso palhaço interior e levávamos isto até ao ridículo, ao máximo expoente. Foi das experiências mais gratificantes que eu tive.

Aprecio muito o contacto humano e dou por mim muitas vezes a conversar com pessoas e começar a reparar nas suas caras e características marcantes. Admiro a beleza feminina porque é mais sofisticada do que a beleza masculina. Quando uma mulher se arranja os detalhes são infinitos e muitas das vezes acabam por criar uma personagem.

Podias pintar mulheres de gerações mais jovens… A opção pelos retratos das “Velhas Bonitonas” deve-se a algum motivo específico?

Como disse anteriormente acho que ousam ser quem querem, já não têm que provar nada a ninguém. Têm liberdade de espírito. Nunca pensei numa perspetiva de desenhar pessoas mais novas ou mais velhas. Sinto-me muito confortável em desenhar mulheres com uma idade mais avançada. Acho interessantes as rugas, o olhar mais forte.

Talvez exista uma referência subconsciente que tem a ver com uma presença muito distinta das minhas avós. Uma que eu conheci até aos 16 anos, outra que morreu há três e que viveu até aos 97 anos. Era retratista. A minha avó materna, Maria Burnay, sempre pintou retratos e naturezas mas nunca expôs. Insistíamos para que fizesse uma exposição, mas ela nunca quis. Era muito sóbria e humilde. Tinha muita fé, não só no sentido religioso, mas de força de vida.

Perdeu muita gente, inclusive o meu avô que partiu muito cedo. Tiveram onze filhos. Conseguiu sempre superar estas perdas e erguer-se. Apesar das agruras da vida era uma pessoa leve. A minha avó paterna, Maria Seruya, tinha um estilo diferente, era cheia de personalidade, quando entrava numa sala enchia e iluminava o espaço. Era amiga do seu amigo, uma alma livre.

Acabam por ser duas referências muito diferentes, mas ambas divertidas, com quem dava gozo estar e falar. Os meus pais sempre promoveram convívios familiares regulares. Quando havia almoços ou jantares, novos e velhos, confraternizavam de uma forma espontânea e genuína.

Pretendes passar alguma mensagem com este projeto?

Começou com um interesse pessoal, mas não estou fechada a ter um objetivo social. Acho que se isto puder ajudar as pessoas mais velhas, ficaria muito feliz. À medida que o projeto vai crescendo começo a ter mais contacto com o tema do envelhecimento. O trabalho da vossa Associação, o voluntariado que faço com pessoas idosas, são fontes que me levam a ter uma consciência mais ampla sobre a passagem dos anos.

Existe uma mensagem fulcral neste projeto que é a Força da Velhice feminina e a liberdade de espírito. “As Velhas Bonitonas” são velhas que têm vida própria, não são inúteis e inspiram outras pessoas. O mais engraçado é que tenho imenso feedback especialmente de pessoas mais jovens. Quero inspirar toda a gente. É quase uma cultura de que não há idade, não há tamanho, não há estilo, não há um tipo de beleza padrão. Uma coisa tenho presente, quero continuar a retratar mulheres mais velhas.

Uma coisa tenho presente, quero continuar a retratar mulheres mais velhas.

A liberdade de espírito é algo que te diz muito…

Anseio muito alcançar essa liberdade. Já fui uma pessoa muito envergonhada. Tive uma infância muito feliz, uma família unida, muitos amigos, mas era uma criança introspectiva e debatia-me com muitas questões interiores, que se calhar mais tarde explodiram de alguma forma. Sempre tive muitas prisões dentro de mim, mas que têm a ver com a minha essência e não com o meu meio ambiente. Era uma alma sensível, de olhar muito para dentro.

Não deitava cá para fora as minhas emoções e pensamentos. Todavia, cheguei a esta idade e assumi aquilo que sou. “Ouso ser quem sou, sem complexos, nem culpas”. Porque é que não posso assumir que sou uma mulher bonita e sensual, inteligente, divertida ou tímida. Sou o que sou e tenho de me afirmar, quer nas qualidades ou defeitos.

Qual é a tua “Velha Bonitona” favorita?

Estas Velhas têm alguma ligação com a consciência do teu processo de envelhecimento individual?

Quando me projetava na fase da velhice, nunca me imaginei como uma velha feliz. Como não tenho filhos e a minha família começa a construir as suas próprias famílias, pensava em mim como uma idosa que sofria de solidão.

As “Velhas Bonitonas” têm-me ajudado a mudar de perspetiva. Cada vez que faço um novo retrato imagino-me a ser um dia como elas. Velhas com confiança, liberdade e felicidade. O facto de as criar ajuda-me a encarar e a preparar o meu processo de envelhecimento com um positivismo que não existia em mim. Agora sei que tenho muito para viver e para amar. A vida não acaba com a entrada na velhice.

Tens consciência de que a sociedade discrimina e segrega as pessoas mais velhas?

Foi com a Cabelos Brancos que comecei a refletir sobre o idadismo (atitude preconceituosa e discriminatória com base no factor idade). É algo que habitualmente não se discute. Mas sim, a sociedade discrimina e sempre discriminou o grupo das pessoas idosas.

Conheces a realidade dos modelos atuais de apoio à terceira idade?

Não tenho uma opinião aprofundada porque nunca tive nenhum familiar nessas instituições. Acho que nesses sítios é preciso uma boa dose de sorte. Já tive hospitalizada e sei que o tipo de cuidados que recebemos tem tudo a ver com o profissionalismo e humanismo dos técnicos. Faço voluntariado na paróquia, no âmbito da distribuição de bens alimentares a pessoas idosas, e vou observando que a qualidade dos apoios prestados pelos cuidadores formais é variável de acordo com a sua empatia, rigor, atenção, simpatia e competências técnicas.

De acordo com a minha experiência sinto que as pessoas mais velhas ficam mais felizes se puderem permanecer o máximo de tempo possível na sua casa, próximas dos seus familiares e amigos. Considero que a institucionalização de uma pessoa idosa é algo que só deve ocorrer em último caso.

Imaginas-te a viver num lar de apoio à terceira idade?

No caso de ficar incapacitada para continuar a viver sozinha, se deixar de ser autónoma, sim, imagino-me a recorrer a esse apoio. Não quero que recaia qualquer tipo de trabalho ou fardo sobre a minha família. Não vou querer depender de ninguém. Quando chegar essa altura vou procurar o espaço que acho que seja mais adequado para mim. Quero ser eu a fazer essa escolha.

Fala-se muito no afastamento entre gerações. O que achas que pode diminuir este fosso geracional?

A forma como a sociedade está organizada fomenta este afastamento. Novos para um lado velhos para outro. Infelizmente sentimos que a ausência de convívio intergeracional já é um pressuposto da sociedade. Adoro falar com pessoas mais velhas e quando estão bem resolvidas são a maior fonte de conteúdo que podes ir buscar.

Promover encontros entre diversas gerações pode ser uma excelente forma de aproximar as pessoas e de quebrar estereótipos e preconceitos.

Como é que te vês com 80 anos?

Uma velha bonitona cheia de estilo, sem complexos, nem culpas! [risos]

Acho que é muito importante vivermos a nossa vida todos os dias com confiança, com vontade de viver. É necessário treinarmos este músculo da vontade, de não nos cansarmos da vida.

Já tive períodos de envelhecimento e tenho dias de envelhecimento. Envelhecimento no sentido de desistir, de perder o fôlego da existência…

O que é significa para ti viver uma vida sem prazos de validade…

Viver com vontade, com pessoas e sinergias, fazer novos amigos, divertir-me, viajar mais, amar mais, encarando o processo de envelhecimento sem negação, viver com ele, celebrar a vida, sempre. Uma eterna descoberta…

Um sonho…

Viver sempre com vontade, amar sem medos…

Agradecimentos

Alexandra Teixeira – fotografias

Cafe Galeria House of Wonders

Nota: As pinturas “Velhas Bonitonas” da autoria de Maria Seruya encontram-se à venda.

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