NEWSLETTER

FACEBOOK

Latoaria Maciel, uma história de amor

A Latoaria é conhecida como uma oficina de latoeiro ou estabelecimento onde se vendem latas, objetos de latão, de folha de flandres etc.; funilaria.

A Latoaria Maciel foi registada oficialmente em 1810, no entanto, já tinha as portas abertas desde 1789. Este negócio permanece na família há sete gerações.

Margarida Gamito, 40 anos, é a primeira mulher da família a gerir esta instituição. A Maciel é uma história de família e da cidade de Lisboa. Com mais de duzentos de anos de história foram os latoeiros da coroa real, atravessaram duas guerras mundiais, crises económicas, a invasão da era do plástico e muitas outras adversidades.

Margarida e Rui Gamito são casados e conheceram-se numa das oficinas da Maciel. Encerram em 2014 mas rapidamente voltaram a erguer-se. Rui aprendeu com os mestres a arte da latoaria e juntou-se à Margarida para lutarem por um sonho, por um legado, um amor maior. A sua marca são a criação de candeeiros, lanternas e artigos de decoração.

Como é possível o negócio manter-se na família há sete gerações? Margarida conta-nos que a Maciel sempre teve a sorte de ser gerida por homens apaixonados pela arte e com visão.

Fiéis à arte mas com capacidade de se adaptarem aos tempos.

A história, os afetos, os sonhos e a responsabilidade com os antepassados, mas acima de tudo o amor que colocam nesta casa já tem certamente garantidas mais sete gerações de história.

Nostalgia à portuguesa, com certeza, de Lisboa e Portugal, com futuro internacional.

Quando era mais nova convivia com pessoas mais velhas?

Margarida Gamito: Sim, a minha educação foi muito campo, muito na zona saloia, em Colares.

Férias e fins-de-semana eram passados lá. Os saloios tem uma comunicação fácil e eu venho de uma família que fez com que os filhos comunicassem, bom dia, boa tarde e boa noite eram obrigatórios e quando os miúdos convivem com os mais velhos há uma curiosidade muito grande, uma aproximação.

Eu gosto muito da palavra velho porque quando a pronuncio vem-me à mente sabedoria.

 E nessa altura já sabia o que queria ser quando fosse grande?

Margarida: É engraçado que eu nunca sonhei muito. Era tão feliz quando era criança que nunca pensei ser astronauta ou outra coisa. Pensei em ser filha.

Também posso dizer que queria ser advogada, que nunca fui, porque falava imenso, mas nunca tive muita pressa. Ia vivendo o agora e hoje percebo que a melhor coisa que uma criança tem é ser criança, é não ter pressa para crescer. Porque na meninice existe algo muito próprio, muito inocente. O pai é o herói, a mãe a heroína. Tudo é perfeito.

Depois há medida que vamos crescendo vamos tomando outras noções da vida e é muito cruel, os pais defendem-nos e protegem-nos muito.

Eu vim de uma família com um casamento muito feliz e havia muito amor e esse amor é fundamental para a pessoa que sou hoje.

Esta latoaria é uma instituição da cidade. Começaram em 1810 (registos oficiais) e já está na família na 7ª geração. Como começou?

Margarida: Começou como todos os latoeiros. Na latoaria eram produzidas todos os objetos de que a sociedade precisava. Se era preciso uma bacia era uma bacia.

Às vezes associa-se a Latoaria a latão, que não se considera um produto tão nobre. E não se associa à decoração, à arte…

Margarida: Sim é verdade, a arte na latoaria é uma área muito abrangente e nós menosprezamos esta arte.

Nós somos latoeiros e fazemos lanternas, mas temos o latoeiro/funileiro, latoeiro/caldeireiro. Porque eram pessoas que aprendiam a arte de transformar os metais mais leves, a folha de flandres, chapa zincada, chapa galvanizada, zinco, cobre e o latão.

Em 1810 a Maciel começa a fazer panelas, mas há registos de antes do terramoto.

Rui Gamito: Depois do terramoto, a cidade estava a ser reconstruída e era necessária iluminação pública. Todos contribuíam com o que podiam e o Intendente Pina Manique obrigou todas as latoarias que estavam em funcionamento, cada uma a fabricar um determinado número de peças para a via pública e todos os cidadãos maiores de 18 anos que não estudassem eram obrigados a dar uma medida de azeite todas as semanas, para a iluminação pública.

Margarida: A Maciel foi a última a deixar de fazer a manutenção dos candeeiros. Isto porquê? A Maciel, com a era do plástico, teve como escapatória virar-se para a iluminação. Porque se percebeu que a iluminação traria mais conforto financeiro do que o resto que já estava rendido ao plástico.

Sabem o nome do fundador da Maciel?

Margarida: Chamava-se Epifânio Trucato Maciel. E depois foi passando de filho varão para filho varão.

Era uma arte totalmente exclusiva dos homens, não haviam mulheres latoeiras.

Eu fui a primeira mulher a ter permissão para entrar nas oficinas.

Esta arte, como outros ofícios em vias de extinção, tinha sempre mestres e aprendizes. A vossa instituição histórica também tinha mestres e aprendizes?

Margarida: Sim, tinha sempre um mestre, que era o chefe das oficinas. Isto é de família, entrava-se pequenino e saía-se reformado e mesmo depois de reformado ainda se ficava lá.

Porque quem se dedicava a estas artes, depois também não sabia fazer mais nada, era um emprego para toda a vida. Iam para casa fazer o quê? O nosso mestre atualmente tem 84 anos, é o mestre Rufino. Ele não tem obrigação de vir cá, mas vem. É muito bonito e quanto mais velho melhor, mais apuradinho (risos).

E o Rui, que é casado com a Margarida, não tinha ligação com esta arte?

Margarida: Não tinha e é curioso porque o Rui, em tempos, na altura do verão, para ganhar uns tostões, foi trabalhar na nossa oficina, na pintura. Mas eu não me lembro dele, temos 5 anos de diferença e hoje não é nada mas na altura era.

A área do Rui é outra, é a arte do espetáculo, de ser contrarregra, fez sempre cenografia. É um homem com uma sensibilidade muito grande.

Como é que o Rui veio parar aqui?

Margarida: O Rui veio de uma forma muito bonita e natural. Eu casei com o Rui muito jovem, com 20 anos. Entretanto o Rui começou a trabalhar no teatro, teves várias convites e acaba no Casino Estoril. Esteve lá durante 12 anos, na área do espetáculo, e a seguir há um despedimento coletivo (que ainda continua em tribunal). E o Rui é um homem muito ativo, e houve um convite para ir para a oficina. Começou a aprender. E a produzir lanternas. Entretanto o meu pai adoece, eu entro na Maciel e começamos a fazer equipa. Eu na parte da frente, na venda e ele na parte das oficinais (em que o Rui é fantástico). Antes disso, eu trabalhava na Coca-cola, em marketing.

Porque o seu pai a escolheu a si havendo um filho varão?

Margarida: Somos 4, eu e a Inês que somos gémeas, a Alexandra, mais velha e o Rui, o mais novo. Eu tinha mais tempo, podia ficar, enquanto o meu pai estava nos tratamentos.

A Maciel sempre foi gerida por pessoas fortes também em economia. O meu pai, também chamado Rui, dizia: Jamais a primeira pensava que a sétima tivesse a mesma paixão.

E é em momentos de crise em que se pensa em ficar ou deixar.

200 anos já passaram, no meio de guerras, crises económicas, de tantos desafios e mudanças. Qual é o segredo? Alguma vez fecharam?

Margarida: Fechámos em 2014 pela primeira vez.

Entretanto apaixonei-me completamente pela Maciel. Se o meu pai não tivesse falecido teria ficado na mesma. Nós vamos ouvindo histórias dos nossos antepassados, de pessoas que não conhecemos e até mesmo dos próprios clientes, e apaixonamo-nos. E isso pesou sempre na passagem do legado.

A Maciel passou momentos de crise com a I Guerra, na II Guerra, tivemo-nos de virar para a madeira, porque houve um impedimento do uso do metal. As lanternas passaram a ser feitas em madeira. Foi a única forma de sobreviver. A Maciel foi feita de homens de visão, com capacidade de adaptação, abertos a desafios.

E quando chega a mim, de uma forma muito rápida, foi muito bonito.

Foi a primeira mulher na Maciel?

Margarida: A Maciel trabalhava com mulheres mas só ao balcão, não podiam ficar na oficina. E lembro-me que havia uma encomenda muito grande. E como o meu marido estava lá, eu ia tinha como desculpa ir para a oficina. Desde criança que a parte mais bonita para mim era a oficina. E já tínhamos poucos aprendizes, e eu pensei: tenho duas mãos e vou ajudar. E fui para a oficina.

Fui falar com o meu pai e disse-lhe que havia pouca mão-de-obra e que precisavam de mim. E assim foi. Foi um projeto muito bonito. Nunca ouviu um não de algum funcionário da oficina. Eu não me impunha, eu pedia, falava do coração.

Ao longo destes 200 anos, já tiveram trabalhos marcantes. Se pudesse escolher alguns, quais seriam?

Margarida: Na geração do meu pai foi sem dúvida o Vidago Palace. Eles tinham peças da Maciel antigas e procuraram-nos de novo.

No tempo do meu avô foi quando a rainha de Portugal, a rainha D. Amélia, recebe a rainha de Inglaterra no Palácio de Queluz. A rainha veio em pessoa à Maciel pedir para gravarmos num conjunto de chá de prata, as insígnias da coroa real portuguesa e da coroa real inglesa, para lhe oferecer. Ainda hoje existem, uma está no Palácio de Queluz e a outra no Palácio de Buckingham.

Ainda temos as notas de encomenda!

Nós éramos os latoeiros da coroa.

A história da Maciel não é só a história da nossa família, mas também de Portugal.

Existe uma fotografia da Câmara muito antiga em que se vê uma rua com as nossas lanternas.

E cada uma tinha um nome, ou de uma terra, ou de um acontecimento. As candeias da Beira são diferentes das do resto do país.

Outro trabalho marcante foi o do Palácio Ramalhete, na rua das Janelas Verdes, em Lisboa.

Um fotógrafo internacional de moda, Mario Testino, veio a Portugal e apaixonou-se pelas peças feitas à mão porque sabiam que eram arte. E levou a arte para além mundo.

Ainda a semana passada tivemos cá o Christian Louboutin, famoso desenhador de calçado. E encomendou artigos para as suas casas em vários sítios do mundo. E é engraçado que sempre que cá vem, faz visitas guiadas com os seus amigos à nossa loja.

 A Maciel precisa de aprendizes para assegurar o futuro do ofício. As pessoas mais novas interessam-se por esta arte?

Margarida: Nós temos uma colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa, que nos fez cruzar com pessoas muito interessantes. A Catarina Portas, que já era nossa cliente, ajudou-nos imenso.

Vamos abrir uma oficina muito grande virada para a arte no Bairro Alto em conjunto com a Fundação Espírito Santo. Não temos só candeeiros, as pessoas chegam com esboços e nós concretizamos. É uma arte muito rica. Nós criamos tudo.

Quais as caraterísticas principais que alguém que queira seguir este ofício deve ter?

Rui: Muita paciência (risos), habilidade manual, criatividade (porque os metais são como nós, têm dias! Há dias que reagem muito bem e há dias que reagem muito mal e a criatividade é que vai arranjar a solução) e gosto pelas artes. Depois é uma questão de aprendizagem, gostar de aprender e indo fazendo cada vez mais.

Margarida: Os mestres não gostam de passar todo o conhecimento, mas depois há pessoas generosas que ensinam os outros e fazem-nos crescer.

Vivemos num tempo em que as gerações estão muito afastadas. Os novos só convivem com os novos e os velhos só convivem com os velhos. A arte pode ser uma forma de juntar gerações através de um interesse comum?

Margarida: Sim, nem faz sentido ser de uma outra forma. A maneira como uma pessoa velha ensina, com a sua essência, é lindo.

As pessoas começam de novo a dar valor ao que é feito à mão, individualizado. Percebem que a pessoa é melhor que a máquina. Nota-se isso?

Margarida: Sim, começa a haver uma sensibilidade para as peças únicas e as nossas peças são únicas por serem feitas à mão. Mesmo que os moldes sejam iguais cada uma tem um acabamento diferente.

Lembro de nos meus 17/18 anos, a minha geração ter sido apelidada de geração rasca, e eu não percebia porquê. Mas é essa geração rasca que faz agora esta magia, que tem essa sensibilidade, que faz com que as coisas não morram.

Acredito que as pessoas percebem que se a Maciel morrer já não volta.

Rui: Se eu tivesse dinheiro abria um espaço em que colocava várias pessoas a trabalhar nesta arte. E depois ficariam as que gostassem e quisessem continuar.

Vocês têm uma filha, a Madalena de 20 anos. Ela sente alguma pressão para continuar o negócio da família?

Margarida: A Madalena, ao contrário de mim, que me interessei apenas quando o meu pai adoeceu, já sente emoções de perda, de luta. Ela sabe o esforço que foi feito, o amor, a paixão, a vontade de querer. E, quer queira ou não, ela é a minha essência do amor, ela tem a Maciel dentro dela.

Quando a Maciel teve de fechar o espaço onde esteve duzentos anos foi muito dramático, principalmente para o meu pai, que não chegou a ver este novo sítio. A Maciel não são números, é vontade, história, amor, verdade. Foi muito difícil encontrar estre este lugar, pediam-nos valores astronómicos, mas também quiseram que nos tornássemos numa fábrica enorme com vista à exportação. Na véspera do meu pai morrer ele perguntou-me se já tinha loja e eu disse-lhe: Eu não sei quando vamos ter uma loja, mas uma coisa te prometo, a Maciel vai abrir, quando eu não sei, mas vamos abrir!

Eu nunca posso falar da Maciel sem me emocionar. As lágrimas que tenho hoje são de alegria.

Vocês estão na casa dos 40 anos, alguma vez se sentiram discriminados ou discriminaram alguém devido à idade?

Margarida: Não.

Mas é algum comum, que não se pensa muito, ser discriminado pela nossa idade.

Margarida: Eu acho que quanto mais velhos melhor.

Rui: Para o mercado de trabalho já podemos ser considerados velhos.

Margarida: Eu não consigo perceber como é que numa fase de pleno conhecimento uma pessoa pode ser considerada velha demais… Antes disso não há sequer experiência de vida.

Rui: Muitos patrões querem pagar menos e os trabalhadores mais velhos recebem mais.

Como é que a Margarida se imagina com 80 anos?

Margarida: Eu espero que esteja bem de cabeça e fisicamente. Espero continuar a trabalhar, ativa e sentir-me útil. E chata (risos). Acho que como agora me gosto dar com as camadas velhas, quando for velha vou-me sentir bem com as camadas novas.

Para terminar, um sonho?

Margarida: O meu sonho é que a Maciel vá para a frente e que venham mais 7 gerações. Adorava que fosse a família, mas que seja alguém que ame e respeite a história do Maciel, que seja de alma e coração.

Latoaria Maciel

Rua da Boavista 6, 1200-066 Lisboa

Contacto: 936 947 825

Magazine Cabelos Brancos – Todos os direitos reservados.

ANTERIOR

Álvaro, o restaurador de leques