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Joana, a artesã do largo das terças

Foto de Nuno Martins

Joana Azevedo, 36 anos, natural de Vouzela, vive atualmente no Candal, aldeia serrana do concelho de S. Pedro do Sul. Esta serra é um recanto encantado e desconhecido do Portugal real. Joana é formada em restauro de arte sacra, mas até chegar aqui percorreu muitos trilhos. Já trabalhou em várias áreas, nomeadamente em cinema com João César Monteiro e viveu em mais de 20 sítios diferentes. Ficou perdidamente apaixonada por esta montanha quando a conheceu pela primeira vez. Todos os anos tinha de voltar na Primavera para ver o despontar das flores.
O Candal tem cerca de 40 habitantes. As suas gentes foram partindo em busca de uma vida melhor. Esta artesã fez o percurso inverso: abandonou a cidade e rumou em direção ao sonho da montanha. Instalou-se no Candal e abriu a oficina/ateliê de nome Urze. Aqui desenvolve trabalhos de restauro de arte sacra em talha dourada e pinta quadros com criaturas fantásticas inspiradas na natureza que a rodeia.
Nesta aldeia envelhecida é das habitantes mais jovens, contudo, dá-se às mil maravilhas com as amigas cabelos brancos. Vivem em harmonia e na economia da dádiva.
Joana é o símbolo de que é possível criar uma nova nostalgia à portuguesa, uma fusão entre o ancestral e o moderno, um novo tempo “fora do tempo”.
Para manter vivo o sonho desta nova viragem é necessário dar a conhecer o seu  trabalho e história corajosa. Espalhá-la pela nuvem e quiçá visitá-la pessoalmente na sua oficina. Fica ali para os lados da serra, no largo das terças, numa aldeia portuguesa, com certeza.

Como é que foi a tua infância?
Com muitas brincadeiras na rua… a fazer arcos e flechas e fisgas. Foi à moda antiga. Nasci e vivi em Pontefora – aldeia do concelho de Oliveira de Frades – numa casinha isolada no meio do bosque. Depois fui morar para Oliveira de Frades, mantendo sempre contacto com Pontefora aos fins de semana e férias. Cresci rodeada de irmãos: somos quatro. Os meus pais deram-nos longas temporadas de campismo selvagem: era divinal! Foi uma infância feliz vivida no seio de uma família numerosa.

Fala-nos do teu percurso profissional.
Andei a saltitar em muitas coisas. Neste momento faço restauro de arte sacra. Sou formada nesta área, especificamente na área de madeiras.

Foto de Nuno Martins

Trabalhaste como atriz com o realizador João César Monteiro. Fala-nos desta experiência.
Foi uma experiência única, que mudou completamente a minha vida – a forma de ver o mundo. Foi dos espíritos mais jovens que conheci.

Porque é que decidiste abandonar o universo da representação?
Não abandonei…. A vida foi-me apresentando outros caminhos, outras áreas. No entanto, a representação foi um período muito importante do meu percurso. A minha vida profissional tem sido um pouco nómada. Trabalhei em informática, fui secretária administrativa, trabalhei em lojas de roupa, bares, mundo da moda e também cinema…Também já vivi em mais de 20 sítios diferentes, em Portugal e no estrangeiro.

Alguma vez desejaste “eu quero ser ou fazer isto…”
Sempre tive o sonho de querer viver na montanha, desde os meus 14 anos. Foi na altura em que conheci esta serra. Este chamamento sempre foi uma constante na minha vida. Vivi em Lisboa, Porto e Coimbra, em muitos sítios urbanos, mas sempre necessitei de vir aqui. Regressava cá na Primavera para ver as flores. O meu fio terra era este.

Aqui vivem mais idosos do que jovens. Como é que te situas?
Provavelmente tenho 80 anos. Dou-me tão bem com as minhas vizinhas… Sinto-me muito bem quando estou rodeada de pessoas mais velhas. Não é que eu não goste de jovens…. Mas elas têm um espírito tão jovem que às vezes no meio de pessoas da minha idade não encontro esta alegria.

Não te sentes isolada?
Não estou assim tão isolada do mundo. Não sou uma eremita. Estou a trinta minutos de uma cidade. Estou aqui porque gosto de aqui viver, mas também continuo a ir a cidades, a estar com gente jovem, a ir a festivais, continuo a ter uma vida social e cultural. Também tenho imensos amigos que me vêm visitar.

Sentes-te mais uma artista ou uma aldeã?
Sinto-me uma artesã. Faço talha dourada.

Também pintas. Podes falar-nos sobre o universo das tuas pinturas e a ligação que podem ter com este sítio…
Adoro pintar. O universo das minhas pinturas são criaturas fantásticas: lobisomens, unicórnios, fadas, demónios e anjos. É um imaginário semelhante ao das crianças. Tenho a noção de que eu própria muitas vezes habito nesse mundo. Digamos que a minha fantasia infantil é um pequeno autismo. Os meus retratos representam esses mundos paralelos. A natureza também é inspiradora e facilmente nos transporta para um universo mágico e sagrado.

Pintura de Joana Azevedo - Minas de volfrâmio, alto das chãs

Como é que sentes o despovoamento do interior do país? Que tipo de medidas poderiam reverter esta situação?
Simplificar é um dos caminhos. As pessoas tornarem-se mais simples. Não sentirem que precisam de tantas coisas, como bens materiais e agitação. Devem fazer o percurso inverso, ou seja, desprenderem-se dos objetos. Elas partem em busca do plasma, do carro, da tal vida melhor, porém, é possível viver de outra forma, enriquecedora e gratificante. A adoção de uma vida mais simples seria uma postura que poderia eventualmente contribuir para o repovoamento do interior do país.

Fala-se muito do afastamento intergeracional… Como é que se vivem nesta aldeia as relações entre diferentes gerações?
Aqui não se sente nenhum tipo de fosso ou afastamento entre novos e velhos. Mas noutros sítios, sim. Aquele respeito que nós tínhamos pela velhice, de ouvir as histórias com os olhos muito arregalados, com muita atenção, é mais difícil de encontrar agora.
A velhice deveria ser encarada como uma etapa de sabedoria baseada na acumulação de experiências e aprendizagens. Na civilização Maia alguém só podia ser considerado sábio depois dos 50 anos.

Temes a solidão da velhice?
Ao longo da vida vamos experienciando vários tipos de solidão… Quando morava em Coimbra conheci uma senhora mais velha que estava sempre à janela à espera que alguém parasse para falar com ela. Isso era uma solidão. Aqui é o inverso: às 6h da manhã tens toda a gente na rua. Isto é mesmo uma comunidade que mantém todos os preceitos do antigamente, designadamente a economia da dádiva.
Quando neva as estradas ficam cortadas e ficamos isolados. Mas acaba por ser lindíssimo… Temos logo alguém a bater-nos à porta a perguntar se precisamos de alguma coisa: “Tens manteiga, tens azeite, o que é que te falta?” Existe um verdadeiro espírito de partilha, entreajuda e solidariedade.

Como é que é viver de uma profissão que tenta preservar e valorizar o passado, no presente contemporâneo?
É um bocadinho parecido com a arqueologia. Fico com as memórias e histórias antigas. Também fico muito ligada ao respeito e culto que as pessoas têm pelas peças de arte sacra. Sempre que trabalho as peças não tenho só em conta o lado físico-químico, tenho também que valorizar o lado emocional e histórico que está atribuído a cada artefacto.

Como é que te imaginas com 80 anos?
Igualzinha à Dona Luísa. É minha vizinha e amiga. Tem um sorriso sempre jovem e vive em permanente alegria. As mulheres do Candal sofreram muito mais do que qualquer uma de nós. Parece quase impossível que depois de tanto sofrimento estas mulheres ainda conservem um sorriso fácil e uma luz própria.

Foto de Nuno Martins

Consideras a hipótese de um dia abandonar esta aldeia?
Já sobrevivi a cinco invernos. Os dois primeiros são a prova de fogo. Já houve mais jovens que vieram viver para o Candal, mas desistiram após o segundo inverno. A neve traz um grande isolamento. O que importa é que neste momento sou feliz aqui…

No caso de ficares dependente, imaginas-te a viver num lar da terceira idade?
Se me derem tintas e telas, sim. Já cheguei a fazer um estágio numa carpintaria que pertencia a um lar.
Considero que existem vários tipos de lares: aqueles em que a dignidade das pessoas nunca é posta em causa, e há outros onde ela se torna ameaçada.
Tem a ver com a filosofia do espaço. Dou o exemplo da Assol, uma instituição que conheço bem e que trabalha com pessoas com deficiência. É uma das instituições mais bonitas que conheço. As pessoas são tratadas com carinho, ternura e dignidade. A filosofia da Assol chama-se Gentle Teaching, e consiste num modelo de relacionamento que implica tratar os outros com muita gentileza e amor. Esta filosofia podia ser aplicada em tudo: nas escolas, nos lares, no nosso dia a dia.

Um sonho…
Já estou a viver o sonho… só desejo que se mantenha….

Artesanato Urze – Joana Azevedo

Largo das Terças, Aldeia do Candal

São Pedro do Sul, Viseu

Telefone: 232 798 094

Email: joanacalueque@gmail.com

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