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Isabel Silvestre, Manhouce canta

Entrevistar Isabel Silvestre, 77 anos, na sua casa em Manhouce (aldeia serrana de S. Pedro do Sul, Viseu), é uma experiência que nos marca para toda a vida.

Isabel já é mito, já é lenda, já faz parte da história da música tradicional portuguesa.

Conhecida como impulsionadora e solista do grupo de cantares de Manhouce, foi além de cantora, professora e presidente da junta.

Escolheu viver em Manhouce, junto das suas raízes e tradições. Abraçou várias missões, mas a maior delas é impedir que o passado e a identidade de Manhouce, uma das aldeias mais portuguesas de Portugal, se esfume no futuro.

Os trajes, as canções, as romarias, as tradições de um lugar onde todos começam a cantar na barriga das mães. Tudo isto tem de ser preservado de um modo vivo e contínuo.

Sempre cantaram por tudo e por nada.

Até na hora da morte havia canções de despedida – ” Era um cantar para fora e um chorar por dentro”.

A riqueza deste povo do qual Isabel é a mais fiel embaixadora, baseia-se numa singularidade fascinante, cantam no feminino a três vozes, têm trajes inigualáveis.

Isabel diz que são uma mistura da serra e do mar.

Quando a ouvimos cantar, todo o nosso corpo estremece, canta de olhos fechados numa espécie de transe, a sua voz parece ressoar das profundezas da mãe terra.

O município de S. Pedro do Sul encontra-se a preparar a candidatura de “As Vozes de Manhouce” à UNESCO para as declarar Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Diz que os cantares de Manhouce é música clássica no popular religioso.

Levou a sua voz aos quatro cantos do mundo, conheceu figuras como Amália, Michel Giacometti e Lopes Graça, entre outros.

É uma voz da música do mundo, uma figura maior do Portugal genuíno.

Diz que nascer, viver e morrer são as três coisinhas da vida. Não tem medo de envelhecer, nem de partir.

Quando partir quer deixar parte da vida dentro daquilo que fica.

Assim será.

Como viveu a sua infância?

Tive o privilégio de viver ou nascer numa família tradicional, uma família ligada à terra.

Há quem pense e quem pense bem, que estar ligado à terra ou a uma casa tradicional é uma escola de vida. Porque como nós sabemos é da terra que vem tudo.

O ver crescer as plantas, o ver desabrochar as flores, o ver crescer os animais. A aprendizagem do saber acontecer, do nascer, dos animais, dos pintainhos, dos bezerros quando são pequeninos, dos cordeirinhos, dos cabritos. Tudo isso é um ensinamento para a vida porque os animais ensinam-nos a cada dia.

O animal homem é mais complicado e nem sempre zela pela natureza, nem pela natureza do outro. O que é triste…

Foi uma felizarda…

Posso considerar-me uma pessoa feliz, pela casa onde nasci, pela família que tive, pelo acompanhamento que tive durante toda a vida.

Éramos cinco irmãos, três raparigas e dois rapazes. Das raparigas fui a única que estudei. As irmãs ficaram em casa. Era uma casa de valor, grande, eram três tias, o pai e a mãe. Chegámos a ser catorze a viver naquela casa.

Também havia sempre o criado ou a criada e depois quando eram os trabalhos agrícolas – as ceifas, as malhas, as sementeiras – havia ainda mais gente.

Eram pessoas que estavam ligadas à casa de uma maneira especial.

Quando peço ao senhor padre para rezar missas pela família, peço também pelos trabalhadores.

Os trabalhadores eram pessoas que ajudavam a casa a ser o que era, ajudaram-nos a crescer, ajudaram-nos a criar.

Quem cria, cria sempre qualquer coisa, e na condição do criar tem que se ter todo o cuidado e mais um, porque a criação fala sempre de quem cria.

Eles tratavam-nos como se fôssemos filhos.

Havia dois tipos de tias: as tias-tias e as tias-mães.

Na realidade elas foram mães de nós todos. Foram três tias solteiras que ficaram solteiras lá em casa. Não tiveram filhos. Nós erámos os filhos.

Mas é engraçado. Havia duas que eram mães e havia uma que era tia. Esta tia era mais “nova” que os sobrinhos todos. Tinha uma memória fantástica, muitas das cantigas que nós cantámos foi ela que ensinou, sobretudo na parte religiosa. Desde que me lembro ela enfeitava a igreja.

Havia uma relação profunda entre a família e a igreja desde o tempo dos avós.

Quando estes casaram a minha avó era muito nova. É uma história engraçadíssima.

O pedido de casamento era uma coisa muito divertida. Eles iam até à casa das pessoas, conversavam à noite, observavam as raparigas, o meio familiar, o feitio que elas tinham, isso tudo, e depois é que avaliavam e diziam se valia a pena ou não.

O meu avô já era viúvo, morreu-lhe a primeira mulher. A minha avó era uma miúda muito bonita e na altura pertencia a uma das casas mais ricas da freguesia.

Ele começou a olhar para ela mas ela tinha catorze anos.

Claro que a família ficou apreensiva. Primeiro ela era muito nova, depois ele já era viúvo e era maroto. A família queria que a minha avó tivesse um casamento mais dentro das normas que eles entendiam que seriam as melhores.

Um dia a avó vinha pelo lugar fora e o avô brincou com a rapariga, um ato natural, sem maldade. Ele colocou-lhe a mão no ombro e a avó trazia uma blusa abotoada com molas e abriu um bocadito.

O mínimo belisco na conduta de uma moça era complicado. A partir daí, pronto, o avô teve uma sorte danada e começaram a aceitar o enamoramento.

“Tem que ser, agora aconteceu aquilo, a rapariga fica difamada” – diziam eles.

E pronto, foi assim o casamento.

Eles casaram e não conseguiam ter filhos nos primeiros tempos.

Prometeram fazer uma capelinha na igreja se tivessem filhos. A capela lá está.

Tiveram nove filhos. O meu avô na brincadeira costumava dizer:

“Ó mulher, que Deus nos ajude, mas não tanto.” [risos]

Singram todos. Uns foram para o Brasil e cá só ficaram as tias e o meu pai.

Íamos tendo notícias deles. Através dos meus primos sabemos que uns são músicos, outros cantores, outros pintores, a maior parte está ligada às artes.

O meu pai tinha jeito para trabalhar tudo. Trabalhava a pedra, a madeira, tudo. As escadas que estão na entrada da igreja foi ele que as desenhou.

O convívio intergeracional era comum na vida familiar e comunitária.

As famílias tradicionais tinham os pais, os avós, os tios.

O filho mais velho – era quase como na monarquia – casava e ficava em casa a tomar conta dos pais.

Eram várias gerações a viver na mesma casa.

A aldeia era praticamente uma família.

Por exemplo, nos trabalhos mais difíceis, era necessário muita gente para o trabalho ser feito num dia. Convivia-se com todas as idades.

Davam nomes aos meses. Junho era o mês das ceifas, dezembro o do Natal, agosto é o mês da Senhora da Saúde, etc. Ligaram o tempo às romarias e às festas.

Hoje é a minha ceifa e tu vens trabalhar comigo. Amanhã era o outro que ajudava.

Nas malhas, nos trabalhos mais complicados, era a aldeia que trabalhava em comum, não havia troca de moeda, era troca de trabalho.

Era quase obrigatório levar os mais novos às festas, aos bailes, às romarias, para que eles desde miúdos começassem a aprender.

Se assistir a uma atuação do rancho folclórico, ou a uma atuação do grupo de cantares que agora chamamos “Vozes de Manhouce”, pode verificar que existe uma sequência de gerações.

Nós aprendemos com a tradição, foi passando de geração em geração.

Mas agora elas já têm a noção da música, dos tempos.

A música já é tratada e elaborada, não se foge das raízes, aprendem a respirar, a cuidar da voz, tudo isto ensinamentos valiosos que nós não tivemos.

Cantávamos quando estávamos todos juntos. A preparação era na hora.

A música acaba por ser um elemento unificador.

É preciso que haja fermento para que isto tenha continuidade.

O que ambicionava ser?

O que eu sonhava? Tinha tantas coisas na cabeça. [risos ]

Fiz a quarta classe e depois fui estudar para S. Pedro do Sul. O meu irmão era um dos diretores do colégio e lá fui.

Na altura vivia num turbilhão de ideias. Sei lá se faço, sei lá se posso, sei lá se sou capaz.

Fiz o quinto ano, fui para o magistério. Tornei-me professora.

Sempre gostei muito de crianças e gosto.

Ter a capacidade de ensinar crianças e ter na mão uma massa que a gente pode moldar e criar é fascinante.

À medida que eles vão crescendo vamo-nos adaptando a eles e eles a nós.

Vamos descobrindo as capacidades que eles têm e o poder de os encaminhar.

Uma das coisas que nunca falhou na altura em que era professora foi a música.

Ou se começava ou acabava a aula a cantar. Havia sempre festas, a dos anos, a do Natal, antes das férias grandes, as festas eram indispensáveis. Toda a gente que passou por mim aprendeu a cantar.

Por onde andou enquanto professora?

Dei aulas em vários lugares. A minha primeira escola foi na vila em S. Pedro do Sul, na sala onde fiz o exame da quarta classe. Depois estive em Santa Cruz da Trapa, Vila Maior (aldeias do concelho de S. Pedro do Sul). Também passei por Resende e acabei por efetivar em Manhouce.

Dei aulas em Manhouce durante uns anos e foi neste período que começaram as saídas com o Grupo de Cantares de Manhouce.

Apareceram os músicos que trabalharam comigo, fomos à Alemanha com o Rão Kyao cinco vezes, ao Canadá duas, fomos a Nova Iorque, França, já nem sei por onde andámos.

Teve que escolher entre a música e o ensino?

Sim. A partir de determinada altura tive que optar entre a música e as crianças.

Fiquei ligada à música no Ministério da Educação, embora não dando aulas.

Estive ligada ao gabinete de expressão musical e dramática em Viseu, no museu municipal em Vouzela, depois comecei a fazer recolhas etnográficas aqui em Manhouce.

Começaram a sair os livros mas sempre estive ligada às festas. Num ano no Natal fez-se uma festa escolar em grande, foi uma loucura, só de uma pessoa que “não tem os cinco bem certos”. [risos]

Fez-se um presépio vivo. Fui buscar um burro a Santa Cruz da Trapa, os miúdos vestiram-se, levamos a vaquinha, um bebé no berço, tudo como manda a tradição.

No final, fizemos um almoço tradicional, com a gastronomia de Manhouce.

Nas escolas primárias metemos numa das salas fotografias de 1938 – aquando do concurso “A aldeia mais portuguesa de Portugal” – em que Manhouce esteve inserida.

Noutra sala colocámos fotografias de pessoas que iam para o Brasil, retratos da emigração.

Nas eiras estava tudo a trabalhar, uns nas malhas, outros a moer o milho para ser integrado na gastronomia, o grupo das danças, dos cantares, das tecedeiras.

Colocámos as lojas antigas todas a funcionar. Em cada loja havia uma atividade.

O pedreiro a trabalhar na rua, o serrador a serrar, as doceiras antigas no arraial.

A ideia era mesmo essa. Manhouce, aldeia viva, com todas as tradições.

Foi uma coisa muito bonita.

Manhouce tem uma identidade muito própria. Como surgiu o grupo de cantares?

Como disse os avós, os pais, fazem questão que os filhos assistam àquilo que se está a fazer. Costumo dizer que em Manhouce se começa a cantar na barriga da mãe.

Uma das coisas que as mães de Manhouce me diziam quando iam levar os filhos à escola era: “Senhora Professora, olhe que ele (ou ela) é esperto e canta bem!”

Há outra coisa que Manhouce tem: um dialeto próprio. Isto é uma mistura de mar e de serra. Estamos inseridos na serra mas temos muitas influências do mar, porque havia a estrada romana que ligava Porto-Viseu. Isto é meio caminho e como os almocreves pernoitavam aqui, durante a pernoita havia festa toda a noite.

Cantava-se e dançava-se e pronto havia a troca de saberes do mar e da serra. Inclusivamente há muita música que está ligada ao mar e com a qual a gente não tem nada a ver.

Por exemplo: a “Andorinha Ligeira”; “Vai Marinheiro Vai”; a “Roupa do Marinheiro”; “Olha a Barca, Olha a Barca”.

A música “Andorinha Ligeira” tem a história de que a minha avó foi com a minha tia para uma zona costeira – ela tinha problemas de saúde quando era pequenita e o médico mandou-a tomar ares do mar. A avó foi e ouvi lá a “Andorinha Ligeira”.

Ela cantava muito bem. Trouxe-a e adaptou-a. Eles iam às caves do Douro e ouviam músicas, mas chegavam aqui e metiam o tempero da terra. Iam à nossa Senhora da Saúde, no vale das Vareiras, ouviam as canções do mar, mas chegavam a Manhouce e faziam as coisas à sua maneira. Se lá cantavam a uma voz aqui cantavam a três. No Alentejo a mesma coisa, temos muitas coisas de lá.

Há uma história engraçada com o Vitorino. Estávamos a gravar um disco para Timor no Porto. Sabe como é esta história das gravações, vamos três ou quatro, e vai um gravar de cada vez. Nós ficámos cá fora à espera e no fim fazem o cozinhado e sai o disco.

Eu e o Vitorino estávamos à espera da nossa vez. Ele deitou-se, meteu o chapéu na cara e disse que ia dormir. Fiquei ali ao lado e pensei: “Eu não vou dormir, o que vou fazer”? Então comecei a cantarolar baixinho e o Vitorino às tantas dá um pulo do banco e diz: “Ei ei, de onde é que essa é?”- eu disse que era de Manhouce.

Ele responde: “Epá, a gente tinha essa canção no Alentejo e não sabíamos de onde era” [risos].

A Isabel foi uma das impulsionadoras da criação do Grupo de Cantares?

Sim, no início.

Como nasceu essa vontade?

Em 1938 foi a primeira vez que Manhouce se juntou para cantar e dançar.

Veio um júri de Lisboa e avaliaram o canto e a dança. A partir daí começaram a ter gosto em juntar-se e em fazerem as coisas. O meu irmão – fala-se muito pouco dele – andou no seminário onde foi sempre o solista do Orfeu. Ele gostava muito de cantar, cantava muito bem.

Quando vinha de férias metia-nos todos a cantar. Praticamente o grupo de cantares saiu da nossa família. O Silva foi o mestre no que diz respeito à parte instrumental e orientação do grupo. Juntávamo-nos na nossa casa, ou onde que fosse, às vezes íamos para o rio, as cantigas andavam sempre atrás de nós. Um dos filhos do Silva fez parte da direção da Casa de Lafões e eu pedi-lhes para virem cá cantar umas cantigas, tínhamos os trajes das mães e das pessoas de família.

O traje era assim, era, porque agora já não é. É por isso que ainda temos peças originais, a rapariga casava-se e levava o fato de festa, o fato de noiva. Esse fato era guardado na mala e só era vestido no dia do batizado dos filhos ou em dias especiais. Quando as raparigas casavam as mais velhas diziam: “Coitadinha já comprou a mortalha”.

O traje era usado para os dias de festa mas depois era guardado para quando morressem.

Fomos à Casa de Lafões (espaço que agrega os concelhos de São Pedro do Sul, Vouzela e Oliveira de Frades, com sede na Rua da Madalena, Lisboa), e o Dr. Matias de S. Pedro do Sul, que trabalhava no turismo disse-nos: “Vocês não querem ir ao Algarve?”

Então a convite da Região de Turismo do Algarve participámos no Festival de Folclore do Algarve, em 1978. Na altura em que este Festival era das coisas mais importantes a nível de música tradicional portuguesa.

Nós queríamos ir, mas não havia nenhum grupo organizado.

Fomos por aí abaixo, tínhamos trajes, vestimo-nos e cantámos.

Também aconteceu o mesmo com o Presidente da República Américo Tomás. Ele veio a Viseu, pediram-nos para lá irmos e assim foi. As mulheres da família, porque o canto é feminino.

Os convites começaram a surgiram através da Casa de Lafões. 

Não estávamos nada à espera.

Fomos ao Festival do Algarve e foi transmitido em direto pela televisão.

Foi a nossa estreia televisiva.

Fomos carregadas de ouro. Cada uma levava à volta de um quilo.

Quando demos conta andávamos escoltadas com guardas à paisana.

Os lenços eram de seda autêntica. Nessa altura as peças eram todas ou quase todas originais.

Fui sem falar daqui para o Algarve. Íamos cantar três canções, numa delas eu fazia um solo. Eu ia aflita: “Se me falha a voz”.

Neste festival era o país que se estava a representar. Ia dar o melhor que tinha para o mundo.

No fim, acabámos por ser um sucesso. A nível de grupos – não é que fôssemos o melhor – mas éramos diferentes. Quer no traje, quer na maneira de cantar, quer na maneira de estar. Nós chegámos ali paradinhas e as cantigas saíam e acabou.

Mostrámos o que vestíamos, o que cantávamos, quem éramos, e não andámos lá a dar voltas a mostrar os saiotes. Foi mesmo aquilo.

Se não corresse bem era morte certa. Mas felizmente correu bem.

A partir daqui mudou tudo.

O grupo inédito que canta de forma diferente – diziam.

De Portugal partimos para o mundo.

Percorri e percorro o mundo com o grupo de cantares e com a minha carreira a solo.

Andei pelas Filipinas, Macau, Timor, Brasil (ainda estivemos lá há dez dias), França, Alemanha, Canadá, andamos por aí.

Estamos a preparar a candidatura “Vozes de Manhouce” para a UNESCO para ver se ficamos Património Imaterial da Humanidade.

Grupo de Cantares de Manhouce: Ó Povo Deste Lugar

O Grupo de Cantares de Manhouce estará presente no #FestivalOcupai! com uma atuação na paisagem ribeirinha do Lenteiro do Rio, no domingo 25 de Junho pelas 18h00, replicando assim a forma de cantar de outros tempos, em que grupo de mulheres cantavam entre vales e leiras, projetando as suas vozes de tal forma que eram ouvidas a distâncias enormes. A paisagem e a morfologia da serra da Arada são, pois, parte do segredo destes cantares polifónicos (a duas, três ou quatro vozes), os quais existem em formas ligeiramente diferentes entre as serras da Arada e do Caramulo, não sendo portanto exclusivos de #Manhouce.

Aliás, a Binaural Nodar aproveita a ocasião para defender que a eventual proteção destes cantares ao nível de património imaterial deve ser assumida numa lógica supramunicipal, seguindo o rastro da própria cultura ancestral, não podendo, como tal, ser restringido o seu âmbito devido a paroquialismos redutores (do tipo, a minha aldeia/freguesia é mais pura ou autêntica do que a tua). A Binaural/Nodar efeutou nesta última década dezenas de gravações em outras tantas aldeias de vários municípios, as quais provam inequivocamente que os limites desta tradição polifónica são mais vastos do que alguns nos querem fazer querer (incluem nomeadamente aldeias do Município São Pedro do Sul, Município de Vouzela, Município de Tondela, Município de Oliveira de Frades, Municipio de Arouca e Municipio de Vale de Cambra).

Um enorme bem-haja à querida amiga Isabel Silvestre e ao Grupo de Cantares de Manhouce, pela sua perseverança e permanente renovação.

Publicado por Binaural Nodar em Segunda-feira, 29 de maio de 2017

Porque é que o canto é só feminino?

Os homens emigram as mulheres ficam na terra.

Elas têm que ser pai, mãe, dona da casa, orientar o trabalho da lavoura, era assim.

Agora felizmente e infelizmente, felizmente porque a família está junta, infelizmente porque a parte agrícola está toda a morrer.

Continua a haver emigração e de que maneira.

As pessoas fogem, cada vez nascem menos crianças.

A canção “Pronúncia do Norte” com os GNR é um marco na sua carreira.

Sem dúvida. No ano passado fizemos as melhores salas do país.

Desde o Meo Arena, o Multiusos de Guimarães, Coliseu do Porto e Lisboa, etc.

Um dos meus momentos mais marcantes foi quando cantei num concerto dos GNR “ A Pronúncia do Norte”. Foi no Estádio de Alvalade. Estava esgotado. Eu estava tão nervosa… Não sabia se iam gostar, se me iam aceitar. Mas correu tudo às mil maravilhas.

Como é a sua ligação com o Rui Reininho?

É ótima. Com ele e com todos os elementos do grupo.

Com o Rão Kyao somos também amigos do peito. Mesmo amigos do peito.

Fiz muitos amigos ao longo dos anos.

Tive a sorte e o privilégio de ter mestres do melhor que temos no país.

A Isabel fez um trabalho de recolha etnográfico.

As canções eram passadas através da tradição oral, havia algumas coisas registadas do Artur Santos, Giacommeti e Lopes Graça (reconhecidos musicólogos e etnólogos).  No livro “Cancioneiro Popular Português” temos três ou quatros músicas que foram recolhidas em Manhouce pelo Giacometti e Lopes Graça.

Foi engraçado. Foi na nossa cozinha. Eles tinham estado um mês no Minho.

E depois vieram para aqui numa noite. Parece que estou a ver o Lopes Graça a dizer para o Giacometti “ Olha, nesta noite fizemos mais do que um mês no Minho.”

Eu fiquei danada. Na altura eu tinha uns catorze anos e eles só queriam ouvir as velhas. As novas nada [risos].

Elas é que eram as mestras.

Cante-nos um bocadinho da sua canção favorita.

Vou cantar o “Eito fora” da altura das ceifas.

Conseguiu conciliar a sua carreira internacional permanecendo em Manhouce…

Sim, consegui. Mas quantas vezes o manager do Rão Kyao me disse: “ Isabel vem cá para baixo (Lisboa) porque ganhas muito mais do que ganhas na escola.”

Nunca quis largar isto. A terra, a escola. De uma forma ou outra, fui fazendo as minhas coisas. O que mais gostava.

Também chegou a conhecer a Amália.

Estive em casa dela. Fizemos um pequeno concerto.

Cantámos o “Senhor da Pedra” juntas.

Ela queria gravar esta canção, mas infelizmente depois já não conseguiu.

Há fotografias em que ela está com o meu xaile, lenço e chapéu.

Envelhecer numa aldeia do interior é diferente do que envelhecer numa grande cidade.

Eu acho que é o sítio. Nós sabemos que estar perto da natureza é aceitar aquilo que a natureza nos dá e a que temos direito.

Se as árvores deixam de ter as folhas, se as árvores dão frutos, dão flores, e fazem isto tudo várias vezes – e com o passar do tempo acabam também por morrer.

Vamo-nos habituando à ideia de que nada é eterno e que por conseguinte viver o melhor que se pode.

Não tem medo de envelhecer?

Não tenho medo de envelhecer, nem tenho medo de partir.

Se há coisa mais certa é que nascemos para morrer.

Andamos cá, o povo costuma dizer: “Enquanto Deus quiser”.

Os mais velhos costumam dizer assim:

“ Então, como é que tu estás?

Cá vou indo. Estou à espera da carta de chamada.”

As pessoas na cidade envelhecem mais sós?

Penso que sim. Não têm tanto acompanhamento familiar.

São capazes de ter mais condições, mas é um processo mais solitário.

Fui Presidente da Junta de Manhouce e mesmo antes deste cargo já pensava nestas questões. Criámos o Centro Social para apoiar as pessoas.

Nascer, viver e morrer, são as três coisinhas da vida.

Cada um tem que fazer por si. Cada um tem que agarrar a vida, cada um tem que fazer pela vida para nascer e cada um tem que deixar a vida, porque sabe que a tem que deixar, um dia, mais cedo ou mais tarde, isso acontece.

Há quem diga que no nascer e no morrer todos somos iguais.

Envelhecer é um dos maiores medos dos seres humanos…

Envelhecer com qualidade de vida é um privilégio.

Ter o privilégio de durar, de ter tempo, de avaliar o tempo, aquilo que o tempo nos deu, aquilo que o tempo nos dá, aquilo que o futuro nos poderá dar, é uma benção.

Toda a riqueza que temos dentro de nós e fomos acumulando durante a vida, ter a possibilidade de a dar a conhecer, de a deixar escrita ou contada ou falada, não há que ter medo.

Acho que se deve é pedir a Deus mais tempo…

Há coisas que eu ia sonhando e gostava que acontecessem e há cerca de quatro anos a esta parte, coloquei a toda a freguesia, todos os lugares a cantar.

Porque cantar em Manhouce, era tão natural como respirar. Está intrínseco, dentro de cada um.

Havia as ceifas dos do lado de cá do rio, e havia as ceifas do lado de lá do rio.

Os do lado de cá cantavam e apupavam, para que os de lado de lá cantassem.

Era uma troca. Agora cantou eu, agora cantas tu.

Só havia o rio no meio.

O Cancioneiro Popular Português tem cantigas de todas as épocas do ano.

No Natal, na Páscoa, nas romarias, nos trabalhos agrícolas, cantigas de embalar, cantigas de despedida.

Cantavam quando as pessoas morriam?

Não cantavam no velório ou no funeral.

Quando alguém estava muito mal, próximo do fim, tocavam o sino e o padre ia dar a extrema-unção. O sino tocava num toque próprio e as pessoas que estavam disponíveis acompanhavam o padre e cantavam “Repenica o Sino”.

 “Repenica o sino

Repenico bem

Vai o senhor fora a Jerusalém

Salvar uma alma que o senhor lá tem”

No cemitério no dia um de novembro, cantavam uma canção que eu sempre quis cantar. Diziam que era triste mas eu acho é que uma coisa muito bonita e profunda.

A ver se me lembro:

“Consolai-vos ó almas santas

 Em breve ireis descansar

Nós iremos rezar por vós

Ouvir missas e comungar”

A música é uma coisa espantosa. Isto era cantado a três vozes no cemitério em Manhouce.

Lembro-me de ser pequenita, ouvir aquilo e ficar quase pregada ao chão.

As pessoas que cantavam isto choravam.

Estavam a cantar junto das campas dos entes queridos.

Era um cantar para fora e um chorar para dentro.

A música tradicional religiosa de Manhouce é o que de melhor temos.

Eu costumo dizer que esta música é música clássica no popular religioso.

É a mais profunda, é aquilo que mais nos diz.

Então cantada em ambientes em que ela é de lá (igrejas) é uma maravilha.

Antigamente nascia-se e morria-se em casa. Agora a realidade é diferente. A maior parte das pessoas mais velhas acaba por ser institucionalizada e morrer em lares de apoio à terceira idade. Pensa em como quer viver esta fase?

Temos que pensar…

Infelizmente tive que passar por essa fase com um irmão.

Ele era casado mas não tinham filhos. A mulher partiu uma perna. Eram muito habituados um ao outro.

Ele já tinha Alzheimer e com a doença da mulher piorou.

Depois de ser operada regressou a casa.

Estive fora e quando regresso fui visitá-los.

Tinha vindo uma irmã dela para a tratar, estava lá senhora que tratava da casa e da quinta e o meu irmão. Todos à volta dela e ela a queixar-se com dores.

Achei que estavam todos desorientados. Porque não sabiam o que estavam a fazer.

Não eram médicos, nem enfermeiros e podiam estar a estragar a recuperação.

Tinham que ser pessoas especializadas que tratassem dela.

Acabei por conseguir arranjar uma vaga na Santa Casa da Misericórdia de Vouzela.

O meu irmão Silvério acabou por ir para a mesma instituição.

Ele a mulher Carlota acabaram por ficar juntos. Mas passado algum tempo ele faleceu.

A minha cunhada ainda lá está.

Ficar em casa ou ir para um lar não é uma escolha simples. 

Em casa temos as nossas coisas, estamos no sítio onde sempre vivemos, tudo fala de nós e para nós.

O problema é quando não temos condições para ficar em casa. Nas instituições temos médicos, enfermeiros, acompanhamento durante dia e noite.

Pessoalmente acho que não podemos obrigar os nossos a tomar conta de nós.

Nos tempos que correm nem há tempo, nem disponibilidade.

Se ficarmos em casa acabamos por estar sós e se acontece uma coisa qualquer não temos quem nos apoie.

Estando num lar há sempre gente perto.

Nos últimos tempos de vida precisamos de ser cuidados, não é um cuidado, mas todos os cuidados.

Até digo que um lar é um lugar onde nos podemos sentir mais seguros.

As pessoas de família também se sentem mais libertas e tranquilas, porque o seu familiar tem acompanhamento permanente.

Ao fim e ao cabo quando estamos numa idade avançada estamos à espera da “carta de chamada”.

Precisamos é que cuidem bem de nós.

Para terminar, desvende-nos um sonho seu…

Criar um museu em Manhouce. Este sonho acompanhou-me toda a vida.

Já compraram o terreno. O museu de Manhouce tem que ser uma coisa em grande. Ainda há muitas peças, muita coisa para preservar e divulgar.

Um museu com os trajes típicos, com os utensílios agrícolas, com toda a história da terra.

Todo o espólio do grupo de cantares de Manhouce já está entregue à junta de freguesia.

O meu anda espalhado por várias casas.

Quero muito ver o sonho do museu tornar-se realidade.

Eu gostava de partir e deixar parte da vida dentro daquilo que fica.

Fotos de Matilde Brazeta

Vídeo Grupo de Cantares de Manhouce, © Binaural – Associação Cultural de Nodar

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