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Envelhece-se melhor no Portugal rural? Fomos até lá e ouvimos histórias de abandono e esperança

Durante este Verão fizemos um especial Magazine Cabelos Brancos pelo interior do país. Percorremos algumas aldeias, demos a conhecer pedaços de histórias de vida, mas nem tudo o que vimos e ouvimos pode ser partilhado publicamente. Porém, podemos refletir e chegar a algumas conclusões que são meramente um olhar pessoal.

O mito generalizado de que se envelhece melhor no campo continua vivo e de boa saúde. Fala-se nos benefícios do contacto diário com a natureza, das ligações de entreajuda com a família, vizinhança e comunidade. “Podem ser pobres mas no campo sempre podem plantar e comer o que a terra lhes dá”. Certezas que ainda se escutam, principalmente de quem não tem contacto com o tal país real. Lisboa, Porto e Algarve, e pouco mais é a realidade que conhecem.

Os citadinos do privilegiado litoral viajam e muito. Conhecem a Europa e outros destinos exóticos. Mas se lhes perguntarmos quais são as capitais de distrito da beira alta e beira baixa as respostas são no mínimo constrangedoras. Este desconhecimento está associado à falta de vivência das viagens pelo interior.

Viajámos pelas beiras e o retrato vivo do Portugal despovoado e desertificado deixou-nos com um nó na garganta e uma dor no peito que ficou a pairar até ao tempo da chegada deste Outono.

O desequilíbrio demográfico nestas regiões tem contornos e consequências aterradoras.

Populações muito envelhecidas, sem as tais redes de apoio formais e informais, família, vizinhança e comunidade. A migração interna e externa de Portugal dos últimos anos acentuou as assimetrias regionais.

Com o encerramento de muitos serviços públicos de proximidade, centros de saúde, estações de correio, tribunais, escolas, ausência de uma rede de transportes públicos e diminutas respostas de centros de apoio aos mais velhos – envelhecer no mundo rural tornou-se uma odisseia de tormentas.

No entanto, percebe-se que existe toda uma economia paralela que gira à volta dos cuidados informais de apoio às pessoas mais velhas. A ideia da solidariedade comunitária de entreajuda é uma realidade distante. Os mais novos cuidam dos mais velhos, mas agora em regime de “prestação de serviços”. Os antigos favores como marcar uma consulta, comprar os medicamentos, ou ficar durante algumas horas a acompanhar o familiar dependente de um vizinho deixou de ser um favor para ser uma atividade remunerada.

Durante algumas observações e conversas informais constata-se que a população mais jovem que reside nestas regiões tem uma visão sobre os velhos e o processo de envelhecimento negativa e com alguma revolta perante o cenário de desequilíbrio etário.

Quando se fala em envelhecimento também temos de pensar nas questões da natalidade. É muito importante que estas regiões renasçam de vida, crianças e famílias completas.  Neste espaço geográfico este renascimento é vital para o equilíbrio social que se gera através da diversidade geracional.

“A velha está a morrer aos bocados, Já só restam velhos nesta terra”, são alguns dos comentários que ouvimos de pessoas mais jovens.

Um olhar deprimido e estigmatizante sobre a realidade envolvente e a projeção do eu.

O temor é visível perante o presente e futuro.

Algo que é comum a todas as idades é a sensação de abandono por parte do Governo.

O tal outro país que vive dentro do grande país, que só é reconhecido quando existem eleições e cobranças de impostos.

Apesar de todas as sombras também conhecemos histórias de esperança e amor que nos fazem acreditar na humanidade como fonte de luz – e na necessidade de apoiar e valorizar o trabalho dos cuidadores informais. Torna-se urgente reconhecer e cuidar de quem cuida.

Para terminar, partilhamos um testemunho real e enternecedor na primeira pessoa:

Fernanda, 78 anos, é uma cuidadora informal em vias de extinção.

“Sempre tratei de todos os doentes da minha família.  Cuidei dos meus pais e dos meus irmãos.  

Já partiram quase todos, de 5 irmãos só restamos dois. E as doenças que atormentam a minha família são muito sofridas e lentas.

Nos últimos oito anos fiquei a tomar conta da minha irmã mais velha cá em casa. Tinha a doença de Parkinson. A nossa mãe pediu-nos que ficássemos com ela até ao fim. Como era solteira sentia que precisava de proteção.

Estes anos foram muito duros. Era cuidadora 24h por dia. Ela morreu há dez meses. Partiu enquanto eu lhe dava o jantar. Cumpri a minha promessa e acima de tudo fui irmã e cuidadora por amor. Abdiquei de muita coisa.

Tenho marido, dois filhos e 5 netos. Felizmente todos me apoiaram.  Agora começo a pensar como será o tempo em que serei eu a precisar de cuidados.

Mas não me arrependo de nada. Voltaria a fazer tudo da mesma forma.

Foi por amor.

Texto de Luísa Pinheiro, Co-fundadora da Cabelos Brancos

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