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Deve ter sido muito bonita quando era nova…

Os padrões de beleza foram-se transfigurando ao longo dos tempos e estão intimamente ligados com fatores históricos e culturais. O conceito de beleza feminina na altura da Pré-História estava relacionado com a capacidade de reprodução. As mulheres com “seios fartos e “ancas generosas” eram as mais disputadas e admiradas, porque conseguiam passar a ideia de que estariam mais aptas para a procriação.

No Antigo Egipto a rainha Nerfetiti personificava o ideal de beleza deste tempo. A perfeição advinha da juventude, corpos esbeltos, traços finos e alongados.

Na Grécia Antiga a beleza de um corpo estava associada a medidas harmoniosas e proporcionais. Quando surge  a Idade Média mergulha-se nas trevas. As preocupações estéticas são vistas como uma ofensa perante as leis divinas. Os cuidados com o corpo são considerados pecaminosos.

No período do Renascimento as mulheres mais roliças eram as mais belas.

Nesta altura o padrão de beleza regia-se pelo facto de que só as mulheres com mais posses é que tinham acesso a uma boa alimentação. As formas roliças evidenciavam o seu estatuto social. Os pobres eram magros, os ricos rechonchudos.

Molly - Pintura de Aleah Chapin

No século XVII surge o famoso espartilho, um auxiliar indispensável para tornar as mulheres mais belas. As cinturas queriam-se finas, mesmo que tal implicasse muitos desmaios e algumas costelas fraturadas.

Na burguesia do século XIX recupera-se o conceito de beleza de formas avantajadas e faces rosadas.

A partir do século XX generaliza-se o ideal de beleza que implica um corpo em boa forma, com as devidas nuances históricas e culturais.

Podemos verificar, no entanto, que o conceito de beleza é um tema que suscita múltiplas leituras. Já se venerou a pele alva, pés pequenos, barrigas salientes, testas altas, formas voluptuosas, cinturas de vespa, loiras, ruivas ou morenas, enfim, a lista de características é demasiado extensa e contraditória. Porém, podemos encontrar um denominador comum ao longo da história: a beleza pertence à juventude.

Ser jovem é aparentemente ser belo. Peles imaculadas, cabelos brilhantes, corpos tonificados, sensualidade e vigor, a vida no seu máximo esplendor.  A beleza carnal está relacionada com a juventude.

Um dos muitos receios que o envelhecimento acarreta na sociedade atual é que à medida que os anos vão passando a beleza vai-se desvanecendo.

A mudança do corpo, os cabelos brancos e rugas, transformam o estado de espírito e encanto perante os demais. Surgem sentimentos de desvalorização, inferioridade e exclusão.  Perder a beleza numa sociedade que enaltece  a aparência exterior e a ditadura pelo corpo perfeito é um passo em direção à invisibilidade.

A passagem do tempo é  mais cruel para as mulheres do que para os homens. A mulher a partir de uma determinada idade é apelidada de velha – e  os cabelos brancos são um dos primeiros sinais que se querem ocultar, porque denunciam a idade e o declínio.

Os homens mais envelhecidos, com rugas, cabelos e barbas grisalhas tornam-se charmosos e respeitáveis. Aqui a beleza não esmorece, pelo contrário, adquire um novo estatuto e fulgor.

Uma mulher com 40 anos, na década de 50 era considerada velha. Atualmente com o aumento da longevidade, avanços na medicina e na cosmética e respetivas transformações societais, a entrada na velhice vai sendo cada vez mais adiada.

Agora os 30 anos são os novos 20, os 40 os novos 30 e por aí diante.

Não se diz a uma mulher na casa dos 40 que é bonita, o elogio consiste em expressões do género: “o tempo não passa por ti” ou “pareces uma miúda”.

A pressão para ser bela implica uma luta herculeana contra o avançar do tempo. A indústria da moda e da cosmética exaltam a juventude através de uma padronização do que é ser belo e manter-se jovem.

Temos modelos de 14 ou 15 anos a desfilar nas passerelles – com corpos jovens, magros e altos –  marcas de roupa internacionais que ditam as tendências de moda, sem ter em conta as mudanças do corpo e anúncios anti – rugas protagonizados por mulheres jovens.

No meio laboral, a beleza e a idade, também se impõem como pré-requisitos de admissão: “ Procura-se jovem com boa apresentação e idade máxima até aos 35 anos…”

No mundo artístico, especialmente no cinema e na televisão – envelhecer como mulher artista – é uma caraterística que pode condicionar a evolução da carreira profissional.

Em Hollywood as atrizes queixam-se de vários tipos de discriminação. Um deles está relacionado com o facto de lhes serem oferecidos menos papéis devido ao processo de envelhecimento. Sendo que a diversidade de interpretações também vai reduzindo. Passam a ter papéis secundários e redutores.

Em algumas situações perguntar a idade a uma senhora é considerado uma ofensa. Mentir sobre a idade é socialmente aceite e uma prática comum, especialmente no género feminino. Envelhecer é considerado uma derrota, uma fraqueza, algo que suscita vergonha.

A beleza não pode ser padronizada. Ela vive da diferença e da riqueza da sua transformação e evolução.

Pessoas de todas as idades devem ter cuidados com o corpo. Cuidar da pele, fazer exercício físico e ter uma alimentação saudável, são algumas das práticas para viver e envelhecer bem.

O que importa é que as pessoas se sintam bem consigo próprias e não deixem de se amar e valorizar. Podem optar por cabelos brancos ou pintados,  retoques ou rugas,  a escolha é sempre uma decisão pessoal.

Contudo, não se pode encarar o envelhecimento como uma derrota. Envelhecer é um ato natural, é viver.

Felizmente nos últimos tempos têm surgido alguns sinais de redefinição do estatuto da pessoa mais velha.

Existem estilistas que já recorrem a modelos de 70 ou 80 anos para os  desfiles e produções fotográficas, marcas de cosméticos que recorrem a figuras públicas ou pessoas comuns mais velhas para as suas campanhas publicitárias. No cinema e televisão têm surgido algumas obras que têm como protagonistas mulheres mais velhas em papéis ricos e complexos.

O ideal de beleza não pode ser padronizado e muito menos refém de uma determinada idade. É preciso uma mudança de mentalidades e estabelecer referências de beleza além do tempo da juventude.

Os ícones de beleza não podem ser reduzidos aos jovens. As mulheres mais velhas não têm de tentar de parecer desesperadamente mais jovens para serem consideradas belas. Cada tempo tem a sua beleza.

É inadmissível sustentar a ideia de que os corpos envelhecidos devem ser escondidos do olhar público, para não causar repulsa e embaraço. Usar um biquíni, uma mini saia ou um decote mais profundo, são liberdades que só os corpos mais jovens e perfeitos têm supostamente o direito de usufruir.

O processo de envelhecimento está baseado num julgamento social que anula a possibilidade de encarar esta etapa da vida com serenidade e alegria. Criam-se estigmas, medos e preconceitos sobre aqueles que vão vergando perante a passagem dos anos.

As mulheres mais velhas precisam de deixar de mentir sobre a idade e de não ceder aos padrões impostos pela sociedade dos jovens. Têm que se afirmar como mulheres seguras e independentes. Devem explorar a sua sensualidade, sexualidade e individualidade.

A beleza é algo que transcende a perfeição de um corpo. É subjetiva e carece de verdade. A aparência exterior reflete a alma de quem transporta um corpo.

Abraçar o envelhecimento não significa abdicar da beleza. Homens e mulheres devem-se cuidar, amar e enaltecer. Devem assumir a sua idade e identidade, sem receios de julgamentos e exclusões.

Existe ainda um longo caminho a ser percorrido para que os padrões de beleza se alterem. Ser velho não é não nenhum tipo de doença ou fealdade. As mulheres mais velhas devem transformar-se em ícones de beleza, para que existam referências positivas, naturais e reais sobre a beleza na terceira idade. Uma mulher de 60 anos não deveria querer parecer uma jovem de 30 anos.

Esta distorção de perceções e valores é reveladora de um esvaziamento da verdade e naturalidade da vida.

A beleza real é amar a vida em plenitude, é soprar as velas ano após ano, com alegria e orgulho, sem medos e ocultações.

Um sonho…

Que homens e mulheres de todas as idades se olhem ao espelho, e  afirmem de uma forma segura e convicta, a seguinte máxima: “Espelho meu, não há ninguém mais belo do que eu!”

Ensaio literário da autoria de Luísa Pinheiro, Co-fundadora da Cabelos Brancos

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