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Cláudia R. Sampaio e Francisca Ramalho

Foto de Nuno Martins

Uma conversa de uma beleza maior só poderia decorrer num espaço inspirador. Foi no Miradouro de Monte Agudo (Anjos, Lisboa) numa tarde soalheira, quase primaveril, que ficamos a conhecer o par Cláudia e Francisca. Se fosse possível transformávamos esta valsa numa dança a três e acrescentaríamos a Agostinha. Uma figura ausente, no entanto, predominante nesta roda viva de perguntas e respostas.

A filha Cláudia de 33 anos é aquilo que poderíamos designar por alma sensível e sonhadora. Uma menina que viveu com os avós maternos até aos 21 anos. Sempre foi dada ao mundo das artes. Quando andava na primária queria ensinar a avó Agostinha, que era analfabeta, a aprender a ler e a escrever (até lhe chegou a arranjar um caderninho). Esta tenra paixão pelo universo das letras levou-a ao sítio onde se encontra hoje. É guionista, poetisa e romancista. Escreve guiões para a ficção televisiva portuguesa, já editou dois livros de poesia e está em vias de concluir o seu primeiro romance.

Francisca de 57 anos é a mãe. É uma mulher lutadora, com uma garra sobre-humana. Trabalhou incansavelmente (como rececionista e secretária) quase sem direito a pausas. Foi mãe e pai da Cláudia. Vive com os seus pais nos Olivais. Atualmente cuida da mãe acamada que lhe pediu para morrer em casa. Para uns, esta situação é uma prisão, para Francisca é cumprir uma promessa, desempenhar um trabalho, ao qual se entrega com alegria, amor e profissionalismo.

Será escusado dizer que a sensibilidade deste par, perante os mais velhos, é de uma humanidade que não se mede pelas palavras mas sim pelos exemplos.

Um retrato de mãe e filha. Comovente e lindo como todas as histórias de amor puro.

Como é que decorreu a vossa infância?

Francisca – Fui criada no Baixo Alentejo. Ainda me lembro de ser muito pequena e dos meus pais terem terrenos e uma casa. Recordo-me de andar pelo campo, de vê-los a tratar dos animais, lembro-me perfeitamente.
Depois viemos para Lisboa, (tinha eu 5 ou 6 anos de idade) e fomos viver para a Damaia. Ficamos temporariamente num quarto na casa da minha tia (irmã da minha mãe).

O meu pai foi trabalhar para a Câmara Municipal de Lisboa e eu e os meus irmãos começamos a frequentar a escola. Passado algum tempo o meu pai recebeu uma casa da Câmara porque era funcionário público. Mudámo-nos para os Olivais, para um apartamento muito grande (comparado com quarto). Fomos estrear o prédio. [risos]

Qual é a sua escolaridade?
Francisca – Concluí o 12º ano, já há quase três ou quatro anos, através do programa das Novas Oportunidades. Tinha o antigo 5º ano – equivale ao  9º ano de agora – e decidi voltar a  estudar. Inscrevi-me neste programa e até cheguei a receber o computador Magalhães. O tal programa do Sócrates [risos]. Mas gostei muito, mesmo.

Teve uma infância feliz?

Francisca – Sim, sim. Somos quatro irmãos, três raparigas e um rapaz. O meu irmão ensinou-me a brincar. Jogávamos à carica, ao pião e andávamos de patins. Eu chegava muitas vezes a casa cheia de sangue, por causa das brincadeiras. A minha mãe limpava-me as feridas com vinagre. Foi uma época muito feliz, sem dúvida.

Cláudia – Como toda a gente que não teve televisão, nem computadores. [risos]

Francisca – Vivíamos em liberdade na rua. Não havia tanta maldade e problemas de segurança. Mas tínhamos rádio. Recordo-me de ir ver televisão na taberna quando morávamos na Damaia. Ainda era a preto e branco. Só tivemos a primeira televisão (comprada a prestações) quando já estávamos nos Olivais. Foi uma festa.

E as tuas recordações…

Cláudia – Cresci nos Olivais, vivi lá até aos 21 anos. Como a minha mãe trabalhava muito, a minha avó que já era reformada na altura, acabou por ter um papel fundamental no meu acompanhamento.
Eu ia a pé sozinha para a primária e preparatória. Ficavam muito perto de casa. No entanto, a minha avó sempre me acompanhou nas atividades extra curriculares. Entrei para o ballet quando tinha três anos. Naquela altura queria ser bailarina… como a maioria das meninas [risos]. Era a minha avó que me levava ao ballet, que me levava a passear, etc.

Uma coisa que sempre dei valor e que relembro com muito carinho, é que a minha avó apesar de ser analfabeta, não sabe ler nem escrever, levou-me a todos os museus que existiam em Lisboa quando eu era pequena.

Francisca – Também iam ao cinema e às piscinas.

Cláudia – Em relação aos museus, como não pagávamos entradas porque eu era menor e ela reformada, a minha avó fazia questão de visitarmos estes espaços. Achava que era algo que me fazia bem. Tinha essa consciência.

Nas férias de verão (os intermináveis três meses) como a minha mãe trabalhava, a minha avó levava-me para a praia na Costa da Caparica. Ela ficava o dia inteiro debaixo do chapeuzinho de sol numa cadeirinha [risos]. Entretanto eu fazia amigos, brincava o dia todo, até irmos embora.

Sempre fui muito ligada à minha avó e ao meu avô porque vivia com os dois. No entanto, como o meu avô ainda trabalhava acabei por desenvolver um laço muito especial com a minha avó. Era ela que me acompanhava nas minhas rotinas quase até ser adolescente. Depois da adolescência comecei a sair mais sozinha…
Mas fui sempre uma menina da avó.

Memórias especiais  desse tempo com a avó….

Cláudia – Quando andava no ballet havia pessoas muito sofisticadas. A minha avó era o oposto, era uma pessoa muito humilde, de classe baixa, vinda do Alentejo. Havia quem achasse piada à Dona Agostinha, à sua autenticidade, mas também acontecia o inverso.

No início achava que toda a gente estava a olhar para a minha avó, mas depois comecei a achar imensa piada. Para mim, ela era única e uma das pessoas mais genuínas que eu conhecia na cidade.

Quando entrei para a escola primária apaixonei-me pela leitura e escrita (sempre fui de letras). Como sabia que a minha avó não sabia ler nem escrever tentava ensiná-la. Ela dizia que já era tarde, que já não tinha paciência.

Cheguei a arranjar um caderninho só para a minha avó. Fazia de professora dela, obrigava-a a desenhar as letras [risos]. Também fazia o mesmo com o meu avô. Como ele só tem a segunda classe, escreve de uma maneira muito peculiar. Escreve como fala, ou seja escreve à alentejano.

Tenho um envelope que ele me deu num aniversário emoldurado (tinha dinheiro lá dentro) no qual escreveu: “Para a minha crida neta com nuitos parabíns. Avô Ramalho”. [risos]

O que é queriam ser quando fossem grandes?

Francisca – A minha paixão sempre foi ser mãe. Nasci para ser mãe. Estudei para ter um emprego que me desse estabilidade para realizar o sonho da maternidade. Bem, se não tivesse pânico em ver sangue gostava de ter sido veterinária. Adoro animais. Também sonhava em ser  professora primária, mas não dava, os miúdos são muito mal educados. [risos]

Pronto, formei-me em dactilografia e fui rececionista e secretária administrativa. Lembro-me de ser miúda e de dizer à minha mãe que se um dia não pudesse ter filhos (eu era muito magrinha) que ia à Santa Casa para adotar uma criança.

Quando tive a Cláudia estivemos a “patinar as duas”. Consideraram-nos clinicamente mortas. Fiz a passagem e o regresso pelo túnel. Vi o túnel (a luz) e depois deparei-me com uma planície de malmequeres. Nós não andamos, no sentido de pisar o chão, apenas pairamos. Senti uma sensação de felicidade plena. Tenho uma espiritualidade muito forte, acredito em vidas passadas, em energias, acredito numa força superior. Com o meu grande sonho era ser mãe, creio que vencemos a  morte através da força do meu querer. [silêncio]

Cláudia – Passei por várias fases. Entrei para o ballet com três anos: queria ser bailarina. Porém, quando comecei a escrever com cinco anos, adorava o exercício da escrita. Ia para o quarto e escrevia versos a rimar. Então, desde pequenina, que sabia que queria escrever. Não pensava em concreto em vir a ser escritora, mas sabia que o meu futuro teria de passar pela escrita. Também quis ser pintora, porque gostava muito de desenhar, enfim, tive diversas paixões.

Francisca – Ela sempre disse que queria seguir o ramo das artes. Nunca quis ser advogada ou médica, por exemplo. Nunca interferi nas suas escolhas. O mais importante para mim era ela fazer algo que a fizesse feliz.

Cláudia – Estive na Escola Secundária Artística António Arroio em audiovisuais. Neste período comecei a pensar que o cinema ia juntar várias áreas numa só. O cinema tem a parte visual e plástica, uma junção que me agradava. E como no conservatório havia a área de guionista, achava que me poderia especializar em guiões para poder escrever histórias para o cinema.

Após o secundário concorri ao conservatório de cinema. Foi a minha única escolha. Toda a gente tinha uma lista de várias faculdades. Foi um risco. Felizmente consegui entrar. [risos]

E  depois da faculdade?

Cláudia – No final do último ano do curso o Joaquim Sapinho, que é um realizador de cinema, convidou-me para ser guionista na produtora dele. Estive dois anos a desenvolver histórias e a pensar em ideias. Depois fui despedida. Continuei a insistir no cinema, mas era um meio muito complicado. Na maior parte das vezes não me pagavam. Até que um dia fui parar à televisão. Comecei como aderecista e fiz índices de novelas. Finalmente tive uma oportunidade como guionista na ficção nacional, no formato novela.

Foto de Nuno Martins

Como é que gostarias de ser reconhecida (guionista, poetisa, romancista…)?

Cláudia – Neste momento sou guionista de televisão. Não é o meu sonho. Mas gosto do que faço. É um trabalho criativo, todos os dias invento cenas… Apesar do resultado final na televisão portuguesa não ser o que mais me agrada – consigo retirar satisfação do que faço.

Todavia gostava de ser reconhecida pela poesia. Neste momento estou a escrever um romance, mas não consigo ter tempo para o acabar. Se não tivesse que pagar contas para viver estava em casa a escrever romances. Porém, também hei-de sempre escrever poesia.

Francisca – A veia poetisa vem do avô. O meu pai escrevia versos em rima.

Quanto livros de poesia já publicaste?

Cláudia – Meus, dois. Além de ir participando em antologias.

Francisca – Está a começar a ficar conhecida. [tom orgulhoso]

Cláudia – Publiquei no ano passado o meu primeiro livro “Os Dias da Corja”. O segundo saiu agora em janeiro e intitula-se “A Primeira Urina da Manhã”. [risos]

Como é que definiriam a vossa relação …

Francisca – Às vezes os papéis invertem-se. A Cláudia faz de mãe e eu de filha.

Cláudia – Nos últimos anos parece que trocamos os papéis. Ela não vai ao médico, não toma os medicamentos. Tenho que estar sempre a chamá-la à atenção. [risos]

No início como éramos só as duas  tínhamos uma relação de amor-ódio. Aquela coisa típica de discussões entre mãe e filha. No entanto, ela sempre foi muito liberal. Chegou a ir ao Bairro Alto comigo e conhecia todos os meu amigos. Levava amigos punks e metaleiros para casa e a minha mãe nunca colocou qualquer tipo de obstáculos. Nunca foi preconceituosa. A nossa relação baseava-se na confiança.

Francisca – Sempre fomos amigas. Por vezes, até nos esquecíamos que éramos mãe e filha.

Cláudia – A minha mãe é o meu melhor poema. [risos]

O que é vos aproxima e o que é que vos afasta…

Cláudia – O que nos aproxima é o facto de termos uma relação baseada na amizade. Não  existe só a ligação maternal. Entre nós não há barreiras.

Francisca – A primeira novidade que a Cláudia tenha (boa ou má) sou sempre a primeira pessoa a quem ela liga para contar.

Cláudia – O que nos afasta são os feitios muito opostos [risos]. A minha mãe é muito teimosa.

Francisca – Sou do signo touro. Teimamos muito uma com a outra.

Cláudia – Resume-se a uma questão de personalidades. Nunca é nada de grave. [risos]

Assusta-vos a velhice?

Francisca – Não. Acho que vou ser uma velhota maluca e gira. [risos]
Posso ter problemas muito graves, no entanto, nunca massacro os outros. Estou sempre pronta para a brincadeira.

Cláudia – Não tenho medo de envelhecer porque tenho notado que a cada ano que passa aprendo coisas. Então, pela minha lógica, quanto mais velha for, melhor vou saber lidar com os problemas e situações da vida.

Francisca – Vais ficando mais sábia.

Cláudia – Também vou aprender a ser mais calma. Só agora com 33 anos é que estou a aprender a ser calma. Fiz uma longa jornada. [risos]

A única coisa da qual tenho medo é de envelhecer mal, devido a uma situação de doença ou solidão. Tenho receio de um dia olhar e não ter ninguém à minha volta.

Francisca – Eu acho que nunca vou estar só, porque terei sempre os meus cães e os meus gatos.

Cláudia – Sou uma pessoa solitária, mas não gosto da solidão. Consigo e gosto de estar só no meu espaço. Não quer dizer que não goste de estar com os amigos, não tem a ver com isso.

É um isolamento confortável. Mas por outro lado assusta-me esta minha veia solitária – especialmente na fase da velhice.

Acham que a sociedade discrimina as pessoas mais velhas?

Francisca – Sim, a maior parte das pessoas que conheço acham os mais velhos um estorvo.  Tenho os meus pais a viver comigo e a minha mãe encontra-se numa situação de dependência. Cuido dela. Ouço muitos comentários do tipo: “Como é que consegues estar presa, sem vida, por causa da tua mãe?”

Consideram que vivo numa espécie de prisão. No entanto, trato da minha mãe com alegria, faço-a rir à gargalhada.
Com a situação da crise os mais velhos ainda são mais violentados. Muitas famílias vão buscá-los aos lares para ficarem com as suas reformas, outras abandonam-nos nos hospitais. É uma realidade muito dura.

Foto de Nuno Martins

Nunca pensou na opção do lar?

Francisca – Os meus pais não querem ir para um lar… e a minha mãe pediu-me para morrer em casa. Prometi-lhes que respeitaria as suas vontades.

Claúdia – Voltando à pergunta da discriminação, penso que Portugal é um país de velhos. Existe uma divisão entre novos e velhos. E por causa desta divisão é que se vê cada vez mais as novas gerações a não saberem lidar com pessoas de idade mais avançada.

Verifica-se uma total falta de respeito e sensibilidade… Pessoas mais jovens a gozarem e a desprezarem os mais velhos. Isto deixa-me enfurecida e triste. Antigamente os idosos não sofriam tanta discriminação. Tinham um lugar nas famílias e nas comunidades. Mudou tudo muito rapidamente. Para pior.

No teu grupo de amigos verificas este afastamento entre os mais novos e os mais velhos…

Cláudia – Os meus amigos mantêm um contacto regular com os seus avós – vão visitá-los a casa e também ao lar. Falam deles com afeto e apreço. Mas comigo não poderia ser de outra forma… Não me imagino a ser próxima de pessoas que não tivessem este exemplo de humanidade.

Como é que se veem com 80 anos?

Francisca – Imagino-me igual, aliás, acho que até vou ficar mais estouvada. [risos]

Cláudia – Gostava de viver no campo. Vejo-me rodeada de  gatos a escrever romances. [suspiro]

Se tivessem de ir para um lar, qual seria o vosso modelo ideal?

Francisca – Pensar nos lares de agora deixa-me arrepiada. Falta humanização, falta a vida e alegria que geralmente estão associadas à palavra lar. É tudo menos uma casa, mas sim um depósito, um negócio baseado nas fragilidades das pessoas mais velhas, onde estas não têm uma voz ativa.

Gostaria que os lares do futuro fossem a continuação das nossas casas, com humanização, respeito e afetos.

Cláudia – Simplesmente não me imagino num lar. Os modelos atuais são antecâmaras da morte [pausa]. O meu lar será sempre a minha casa. É aqui que quero envelhecer.

Um sonho…

Francisca – Uma viagem a Paris. A Cláudia prometeu que me oferecia esta viagem. Vamos as duas. Uma coisa só de mãe e filha. [risos]

Cláudia – [prontamente] Viagens e romances. Quero conhecer o mundo e escrever romances. Não é pedir muito, pois não? [risos]

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