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Bons dias

Numa aldeia remota e esquecida, viviam num vale apenas dez habitantes. Esta terra que outrora chegou a ter mais de cem pessoas estava condenada a desaparecer. Recentemente, tinha regressado uma família de Lisboa com duas filhas. Queriam regressar às origens. Estavam cansados da vida de uma grande cidade, da frieza do betão, da ausência dos bons dias. Decidiram abrir um restaurante com as poupanças de uma vida.
Esta aldeia era visitada por alguns turistas. As duas filhas adolescentes não ficaram nada contentes com a decisão dos pais. Elas eram as únicas jovens desta população. Os outros habitantes eram da geração dos seus avós. Viver numa terra rodeada de montanhas e cheia de velhos era um pesadelo. Ir lá de férias era uma coisa, mas viver era uma certeza demasiado longa.
Os pais sabiam que assim que as filhas começassem a escola e fizessem novos amigos a adaptação seria mais fácil. Mudaram-se no início de agosto, para prepararem com calma o regresso às aulas.
Tinham ligação ao mundo através da internet mas como podiam andar a explorar a natureza sentiam menos necessidade de estar constantemente ligadas. Num final de tarde, Eva e Violeta, no meio de mais uma aventura pela aldeia, passaram junto à casa dos avós e ouviram um grito. Sem pensarem, entraram imediatamente para saber o que se passava. O avô estava estendido no chão inconsciente e a avó paralisada pelo medo.
A ambulância de emergência médica demorou trinta minutos a chegar. Quando se vive numa grande cidade esquecemo-nos do que temos garantido. Os médicos disseram que sofreu um princípio de AVC. Regressou a casa passados dois dias. A partir deste momento tudo se transformou.
Eva e Violeta começaram a ajudar a avó nas tarefas do campo e da casa. Apesar de serem tão poucos a viver neste lugar, a forma como todos se ajudavam fazia esquecer os laços familiares. Eram todos uma grande família unidos pelo isolamento da montanha.
Após o começo das aulas e com o correr do tempo as saudades da vida citadina foram diminuindo. As duas irmãs sempre ouviram dizer que todas as oportunidades e o melhor do mundo só era possível nas grandes cidades. Nem tudo o que se diz é verdade. E mais do que dizer é preciso sentir. Sentir era algo que Eva e Violeta faziam com mais força desde a mudança. A passagem do tempo era mais lenta, parecia que o tempo dava uma chance às pessoas para saborear todos os bocadinhos de um dia.
Havia a escola, os amigos, a família (mais os dez habitantes cabelos brancos da aldeia), a natureza, os animais, a neve do inverno, os pássaros da primavera e o manto dourado do outono. Sentiam-se sortudas porque carregavam o melhor dos dois mundos. O campo e a cidade nunca poderiam ser comparados ou dados como inimigos. Não existem lugares melhores ou piores. Como não existem pessoas de raça superior ou inferior. A beleza e força do mundo e dos seus territórios habita na sua diversidade.
Duas irmãs diferentes, duas terras diferentes, nacionalidades diferentes, tempos diferentes, céu, sol e lua os mesmos mas observados com corações diferentes. O que permanecia igual eram os sonhos. Estes não têm limites nem fronteiras.
6h30 da manhã de um dia de primavera. Eva e Violeta percorrem a rua principal da aldeia para apanhar a camioneta que as levará à escola. Por esta altura já toda a comunidade está de pé. Mais um dia igual ao anterior. Dias que começam com a esperança de bons dias. Para hoje, amanhã, depois de amanhã, para o sempre de todos os dias. Bons dias…
Cabelos Brancos – Todos os direitos reservados.

Ilustração de Melodie Stacey

Conto inspirado em vivências pessoais, da autoria de Luísa Pinheiro, 39 anos, e Matilde Brazeta, 13 anos, tia e sobrinha, amigas sem prazos de validade.

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