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Bento, o Avô Cavalheiro

No dicionário a definição de cavalheiro remete para um homem bem educado, nobre e de bons sentimentos. O meu avô Bento era tudo isso e muito mais. Partiu quando eu tinha 8 anos, o que significa que  já não faz parte da vida da nossa família há 31 anos. A passagem do tempo ao invés de fazê-lo cair no esquecimento vai engrandecendo a sua existência. A história parece não ter fim. De vez em quando, surge mais um relato familiar de um episódio desconhecido. É como se ainda desempenhasse um papel central no nosso dia a dia: um semi-deus que traça valores morais e que recebe preces nos momentos adversos.

Nasceu numa vila da beira alta, numa zona rodeada de serras, serras estas que se podem constituir como uma barreira ou um horizonte de sonhos infindos.

Filho único de mãe solteira e pai “incógnito”. Condição que naquele tempo era marcada pelo estigma e podia toldar o destino. Mas quando a força do sonho e da vida são maiores que o nosso fado há vontades que se cumprem.

Carolina Augusta, sua mãe e minha bisavó, não era uma mulher comum para a época. Dizem que prezava a sua independência, era costureira e fazia teatro amador. No Carnaval, as meninas da família vestiam-se com os trajes de tricana costurados pelas suas mãos. Só a conheci através de fotos. Achava que tinha nome e figura de imperatriz com um filho de nome abençoado. Gente humilde com distinção superior perante os proclamados nobres.

O homem Bento foi trilhando o seu caminho, tendo em conta que as dificuldades do seu tempo não têm comparações com as da época em que vivemos. Casou-se e teve cinco filhos. A história de amor proibido com a minha avó daria azo a outra crónica romanceada.

Desde cedo, demonstrou ter aptidão para a área dos negócios. A sua profissão tinha como designação comerciante. Eu diria que era o verdadeiro empreendedor. Ter ideias de negócio é coisa fácil quando se tem capital de investimento assegurado pela fortuna da família. Hoje em dia o empreendedorismo prega-se como nova religião. Mas neste país ser empreendedor e ter sucesso, ainda é algo que raramente acontece a quem tem que construir tudo do zero, sem padrinhos, corrupção ou heranças garantidas.

Abriu um negócio local que era uma mercearia/taberna/retrosaria. Os supermercados da altura. Chegou a ter duas em simultâneo. Também enveredou pelo mercado das feiras. Fazia o périplo regional, onde tinha uma banca de produtos de retrosaria. Para se deslocar utilizava como meio de transporte a sua mítica bicicleta. Foi ganhando o respeito de pobres e ricos, era conhecido pela sua boa disposição, honestidade, classe, inteligência e bondade.

Tinha 1,90m de altura e carisma. Um cavalheiro de voz grave, postura elegante, cuja presença jamais era ignorada.

Todas as histórias inesquecíveis são rodeadas de pequenas ou grandes tragédias. A sua não foi diferente. Começou a ficar adoentado. O seu coração que parecia destinado a uma vida longa de nobres empreendimentos, anunciou sinais de fraqueza.

Passou mais de dez anos acamado e teve que colocar um pacemaker. A minha lembrança dele saudável e ativo é muito curta. Lembro-me de o ver debilitado, entregue aos cuidados diários das mulheres da família, de nos deitarmos sobre o seu corpo e no lugar do coração estar um alto em formato de pilha com o dom mágico de bombear a vida.

Todos os domingos recebia o barbeiro Horácio para os cuidados da aparência e dois dedos de conversa. Também era o dia em que recortava para os netos a banda desenhada do extinto histórico jornal “Primeiro de Janeiro” e a colava numa folha com anotações suplementares. Tinha múltiplos interesses. Leitura, escrita, jornais, política e ciclismo (onde ganhou algumas competições) gatos, entre outros.

Sempre tivemos gatos na nossa casa e eles sempre o escolheram como o favorito. Algo que me deixava ligeiramente chateada. Ou estavam aninhados à volta do seu pescoço, enquanto escrevinhava nas suas papeladas e diário familiar que relatava os acontecimentos de cada dia que se sucedia; ou aqueciam os seus pés na sua cama no período em que o coração começou a fraquejar.

Toda a gente da família gosta de dizer que herdou isto ou aquilo da sua personalidade ou hábitos. Quanto a mim, acho que herdei a paixão pelos gatos e livros, pela escrita, pelo acumular de papéis num caos organizado, pelo ideal de que o sonho é o alimento da alma.

A sua morte foi um ritual comunitário: vi o padre dar a extrema-unção, o último suspiro, o choro dos familiares, a preparação dos rituais fúnebres, assisti a tudo de uma forma surreal. O momento pedia que eu chorasse, mas nessa altura ainda era incapaz de tamanha maturidade. Era a minha primeira morte, velório e enterro. O velório foi em casa, pessoas desconhecidas entravam e saíam. Havia velas e flores, um corpo para carpir. No dia do funeral, o largo que rodeava a nossa casa encheu-se de um mar de gente. Cavalheiros que usavam chapéus pretos, senhoras que usavam véus, pobres e ricos. Novos e velhos juntos para uma última homenagem.

Parecia-me tudo uma encenação teatral, com um tom dramático sedutor e fascinante. Os sinos badalavam e misturavam-se com os choros e as conversas miudinhas durante o cortejo. Tentei soluçar no cemitério para condizer com o ritual, mas mais uma vez foi uma tentativa falhada. Quando chegamos a casa impôs-se um recolhimento coletivo. Fiquei a cismar durante dias e dias que tinha um problema com o chorar, que devia consultar um médico. A sua presença foi-se tornando fantasmagórica, parecia que se fazia avistar em todo o lado. Tornou-se a alma da casa. Uma entidade sagrada destinada à nossa proteção.

Anos mais tarde, quando adquiri a capacidade do choro e da reflexão independente, percebi que o meu Bento não era divino. A sua condição humana tinha vulnerabilidades, falhas e imperfeições.

Contudo, foi nesta altura que jurei que jamais iria deixar que a vida dotasse os mortos ao esquecimento, à não existência. Como podemos perpetuar a memória dos deuses e votar os humanos à escuridão? Como?

B.F.M, és a minha suprema imperfeição humana.

Com saudades,

Luísa Pinheiro, co-fundadora da Associação Cabelos Brancos

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