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Angelina Silva e Luís Espada

Uma história de amor que começou há 35 anos. Luís e Angelina namoraram durante 5 anos e estão casados há 30. Têm crescido e envelhecido juntos.

Luís Espada nasceu em Lisboa há 53 anos, Angelina Silva, 50 anos, é natural de Melgaço (Minho). As suas vidas cruzaram-se em Lisboa e é no emblemático Castelo de São Jorge que começam a namorar.

Diogo é o filho fruto desta paixão, que sabe que não existe nada garantido. A cumplicidade, companheirismo e amizade, vivem lado a lado, com os altos e baixos de uma relação autêntica. Envelhecer como casal é assumir que o amor para resistir à passagem do tempo precisa de atenção diária.

Os contos de fada da vida real não têm inscrito “e foram felizes para sempre”. A eternidade constrói-se no amor nosso de cada dia.

Angelina e Luís, de carne e osso, em felicidade e para sempre, no agora.

Como se conheceram e há quantos anos?

Angelina Silva – Conhecemo-nos há 38 anos, em Lisboa, ao pé da Patrício Prazeres, porque ele namorava com a irmã do meu namorado!

Como surgiu o amor?

Luís Espada – Foi exatamente por dois desentendimentos amorosos. A Angelina desentendeu-se com o namorado e eu, uns meses mais tarde, desentendi-me com a namorada. Mas os desentendimentos não tinham a ver connosco.

Os sentimentos aconteceram de forma natural. A amizade virou e aconteceu. Não foi uma paixão há primeira vista.

Angelina – Tu engraçaste comigo!

Luís – Sim, és uma mulher linda, mas na altura eras uma giraça!

Éramos muito novos, a Angelina ainda não tinha 16 anos.
Casámos com 20 e 23 anos, namorámos 5 anos. Começámos no dia 26 de setembro, aqui no Castelo de São Jorge, por isso é tão especial este sítio.

Angelina – O nosso casamento foi na Sé de Lisboa, era um dos meus sonhos.

O amor eterno foi o que juraram?  

Luís – Sim, ninguém entra para uma relação a pensar que não vai durar.

As relações não têm prazos de validade, se tiverem já vamos com a morte anunciada.

Sonhavam envelhecer juntos?

Luís – Não pensávamos nisso, apenas num dia a seguir ao outro.

Angelina – Mesmo no nosso casamento temos muito essa prática: viver um dia de cada vez.

Luís – Agora já penso envelhecer com a Angelina. É diferente, já temos um passado, construímos a história.

Conheceram-se com 15 anos e agora já estão na casa dos 50. Mudaram muito. Sentem isso?

Angelina – Mudámos e ajudámo-nos muito.

Luís – Sem dúvida. Crescemos juntos, mudámos muito e mudámo-nos um ao outro. Numa relação há cedências, se não vivemos só com o nosso reflexo. Nós vamo-nos moldando e não só para nos sentirmos bem um com o outro, somos confidentes um do outro.

Angelina – Companheiros, amigos…

Luís – A Angelina é a minha melhor amiga.

Angelina – E ele o meu melhor amigo.

Luís – Este ano tenho refletido muito sobre a nossa vivência. Queremos fazer a renovação dos votos. Tenho um amigo que considero o meu melhor amigo e é cada vez mais difícil ele manter esse lugar. A Angelina tem ocupado momentos muito importantes da minha vida e esse lugar se calhar tem ser dela.

As pessoas crescem juntas, mas às vezes em direção opostas, principalmente quando se começam relações em idade muito jovem.
Tiveram alturas em que sentiram isso?

Angelina – Não, nós temos terreno comum e o próprio terreno e damos espaço um ao outro. No início custa mas depois confiamos.

Luís – Partilhamos muita coisa em comum mas há temas que eu gosto e a Angelina nem por isso, mas dá-me espeço para usufruir. Por exemplo, a Angelina gosta de museus mas eu gosto muito de museus. Se estivermos lá duas horas, é bom, mas se estivermos seis horas é mau.

Angelina – Por isso eu saio ao fim de três horas e ele fica. Nós funcionamos como uma âncora, às vezes um afasta-se, mas depois o outro chama-o de novo.

Luís – Não tomo decisões sem consultar a Angelina. Ela nunca me disse que não. Se tem dúvidas pergunta e pede-me para refletir.

Viver é envelhecer. Sentem que envelhecer como casal é diferente de envelhecer só?

Angelina – Sim, muito diferente, principalmente pelo casal que somos. Eu gosto de me arranjar, mas também gosto de me arranjar para o meu marido.

Luís – Eu adoro ver a minha mulher maquilhada, não todas as mulheres, mas a minha mulher.
Mas regressando à pergunta, eu vivi intensamente essa pergunta, refletida na vivência do meu pai. A minha mãe faleceu e o meu pai permaneceu só por opção dele.

É diferente viver só aos 30 anos e aos 70 anos. Aos 30 são os aspetos carnais, mas estes diluem-se e aos 70 quase que não existem. Mas a necessidade de ter uma companhia é real. O viver a solidão, não ter ninguém para falar é muito grave na sociedade de hoje.

Há 60 anos, o velho era integrado numa família, era o ancião que era cuidado por todos. A sociedade transformou-se e a família que era um núcleo foi-se deteriorando. A mulher era a cuidadora e de repente passou a integrar ativamente o mercado de trabalho e não pode cuidar como fazia.

O meu pai optou por ficar em casa, mas a oferta de viver connosco manteve-se até ao fim da sua vida, há dois anos.

Como é que encaravam a velhice dos vossos pais?

Angelina – O meu pai morreu cedo. Só existe a minha mãe. A minha sogra também foi nova.

Luís – A minha mãe tinha um projeto para a sua velhice e para a do meu pai. Era irem para um lar, como já tinha acontecido com a irmã dela. Entretanto a minha mãe falece e todo esse projeto deixa de fazer sentido. O meu pai ficou em casa, totalmente autónomo, com a sua rotina e com muitos amigos. Era muito querido por todos no sítio onde vivia.

Angelina – A minha mãe vive perto de nós. Quando andámos à procura de uma nova casa, depois de muitos anos de viver em Lisboa, era importante estar mais perto dela. Quisemos uma casa numa zona mais tranquila.

Vocês têm um filho, com 28 anos e sabemos que são todos muito cúmplices…
As diferenças de idade às vezes trazem conflitos geracionais, como é que vocês conquistaram essa cumplicidade?

Luís – Nem sempre foi assim. Eu e a Angelina sempre tentámos ser os pais modernos. O Diogo com 13 anos ia para discotecas e hoje não sei se valeu a pena, se calhar valeu. O Diogo é o conjunto disso tudo. Mas a adolescência do Diogo foi muito difícil. Uma coisa ele sempre manteve, era um miúdo muito frontal e boa pessoa.

Angelina – Sai ao pai…

Luís – Eu sou uma pessoa que prefiro perder uma mão do que a ter entalada num sítio em que eu não quero estar, sem conseguir sair. O Diogo era muito rebelde, tinha muitos problemas disciplinares na escola. Eu chegava ao pé dos professores e dizia frontalmente que o meu filho tinha problemas de comportamento e que estava cá para me chamarem para resolver com eles tudo o que acontecesse.
Isto passou-se assim até ao 10.º ano, que na altura não era obrigatório, e os professores não se coibiram de aplicar faltas, antes de falar comigo.

Quem é que tentava disciplinar mais?

Angelina – Eu era a amnistia internacional. Custou-me muito a aceitar as regras do Luís, mas a firmeza do Luís foi necessária. Eu não tinha essa coragem, mas também aprendi a ter.

Luís – Um filho é um ser em construção.

” Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: “Fala-nos dos filhos.” E ele falou: Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem.” Excerto do Os Filhos (Do Livro “O Profeta”)

Como diz este poema, do qual gosto muito, os filhos não são nossos, são filhos de uma circunstância que nós acarinhamos e tentamos passar-lhe tudo, mas eles têm vida própria, eles são indivíduos. São como uma flecha e como pais devemos apontar a flecha para a felicidade. Devemos apetrechá-los como seres humanos para entenderem que vão para um sítio em que não encontram tudo como em casa. Prepará-los para as dificuldades. E por vezes é preciso se duro, saber dizer que não. Porque o não é o que encontram cá fora.

Angelina – No fundo, eles têm de fazer o seu próprio caminho, como nós. Oiço-me a dizer ao Diogo o que a minha mãe me dizia, com o qual não concordava.

Luís – O Diogo transformou-se muito nesse 10.º ano. No segundo período estava com mau comportamento e haviam coisas que não eram sanáveis e eu tirei o Diogo da escola e foi trabalhar. Não foi fácil, foi preciso coragem, hoje não sei até pela legislação se era possível.

Sabemos que têm muitas coisas em comum. O Diogo gosta de tatuagens, como tu.

Luís – Sim, aliás a primeira tatuagem que ele faz (aos 13 já tinha brincos!) foi aos 16 anos. No dia em que fez 16 anos fomos ao Bairro Alto fazer a tatuagem. Muito sofreu ele porque foi nas costas!

Angelina – O Diogo ganhou asas, dizia que ia ficar connosco até aos 28 anos, mas saiu aos 24. Ele já trabalhava e foi uma coisa natural. Ele está completamente à vontade connosco, não há tabus.

E vocês têm amigos de todas as idades?

Angelina – Acho que somos os mais velhos entre os nossos amigos.

Luís – O meu amigo mais novo tem 12 anos. Vamos passar férias juntos e eu falo muito com ele.
Só tenho dois ou três amigos mais velhos.

Angelina – Quando o Diogo vivia connosco, os amigos dele iam lá a casa para estar com o Luís!

Não vivem no passado…

Luís – Essa coisa de “no meu tempo…”. O meu tempo é agora. Não quer dizer que o futuro seja sempre melhor do que o presente ou o passado. Mas dizer que “no passado é que era bom”, é renegar o presente e o futuro.

Gostam das novas tecnologias, de cuidar de vocês, de viajar, de viver, têm prazer na vida…

Luís – A vida só se vive agora.
Por uma questão de sensibilidade os jovens não procuram as pessoas mais velhas. Em momentos ocasionais se nos procuram temos uma porta aberta. Eu não me vou pendurar nos jovens, mas se estiveram presentes eu não me vou pôr num canto. Eu abro as portas que tenho de abrir para eles perceberem que é um espaço onde podem estar.
Não gosto só de museus, tenho muitos interesses, ainda há pouco tempo fui DJ numa discoteca! A Angelina conheceu-me estava eu a pôr música e foi uma coisa que ficou.
Veem um gajo com barbas brancas a meter música e ainda por cima música de hoje!

Angelina – Não temos amigos mais velhos porque não calha, não é uma questão da idade.

Pensam na fase da reforma?

Angelina – Não.

Luís – Eu penso! A Angelina falta-lhe muito tempo para se reformar, é uma miúda. Eu tenho a possibilidade de ir para a pré-reforma aos 55 anos. Na verdade não vai acontecer.
Se as pessoas têm como meta chegar à reforma, quando chegam lá o que acontece?

Mas a esperança de vida aumentou muito, facilmente poderemos chegar a viver 100 anos. Se nos reformarmos aos 66, ainda temos 30 anos para a frente e se as pessoas não tiveram nada planeado… Já pensaram nisso?

Angelina e Luís – Já!

Luís – Eu quero continuar na vida ativa, mas sem patrão! O que efetivamente quero fazer é disponibilizar algum do meu tempo para ajudar os outros, como voluntário. Acho que faz todo o sentido. É um momento em que já não tenho as preocupações de trabalhar e picar o ponto.

Angelina – Queremos ter os nossos dias preenchidos. Viajar também. Passear com os amigos, ir para os petiscos, ler e ouvir música.

Luís – Temos o objetivo de conhecer o máximo do estrangeiro possível. Também gostamos muito de cinema e teatro, não gostamos de bailado mas gostamos muito de ópera.

E hobbies?

Angelina – Eu tenho já muitos, gosto de criar em costura, de transformar coisas velhas em novas. É a minha paixão.

Luís – Eu estou agora a descobrir a carpintaria. Estou a construir uma caixa para a minha mesa de mistura.

Pensam sobre o que se pode ganhar ou perder com o avançar da idade?

Luís – Tenho muito medo de perder a memória e ficar dependente do outro, a dependência é um grande medo. De resto venha ela, para ganhar!
Claro que não posso querer a nível físico fazer algo que fazia com 15 ou 20 anos.

Angelina – Mas podes tentar! Quando é que fizeste slide a primeira vez? Foi há dois anos!

Luís – Eu e a Angelina adoramos viajar e conhecemos bem Portugal, mas podíamos conhecer melhor. Estamos a guardar estas viagens para uma idade mais avançada. Por uma questão física. Aos 80 anos vou ter dificuldades em fazer viagens muito longas. Acho que é uma gestão inteligente.
Mas tenho muito medo da memória, do alzheimer. Gostava de envelhecer como o meu pai, ele era autónomo, ia ao banco, fazia tudo sozinho, todas as decisões eram decisões dele.

E o que ganhamos?

Angelina – Ganhamos muita vivência e muita experiência. Não sei se é bem ganhar, temos de tirar partido da nossa velhice da melhor maneira possível e com isso ganhamos.

Luís – Também acho que ganhamos muita experiência, mas essa experiência serve para quê? Para quem quiser bater à porta e perguntar. O que não podemos fazer é dizer: no meu tempo é que era bom. A nossa experiência pode ser de vencedor e de perdedor. A experiência do perdedor também pode ajudar os outros a não irem por aquele caminho.

Já se sentiram discriminados por serem mais velhos ou já discriminaram alguém por causa da idade?

Luís – Eu já começo a sentir isso. Senti isso num concurso de trabalho em qua a idade limite era 48 anos, o que me colocou de fora.

Angelina – Eu, apesar de trabalhar na área da beleza, nunca senti. Eu aprendo com as colegas mais novas e elas aprendem comigo. Eu aprendo todos os dias com todas as pessoas, independentemente da idade.

E a questão dos lares? Querem envelhecer em casa?

Angelina e Luís – Ainda não pensamos nisso. Mas gostávamos obviamente de envelhecer em casa.

A vossa paixão tem resistido à passagem do tempo. Qual é a vossa receita para a felicidade?

Angelina – Perguntam-me muitas vezes qual é o segredo do meu casamento. É o companheirismo, a amizade e o amor, compreendermo-nos e dar espaço um ao outro.

Luís – A nossa relação não foi perfeita. Mas sempre falámos muito e aprendemos com as crises.

Angelina – É nas grandes crises que o amor prevalece e também a compreensão.

Um sonho para os 80?

Luís – Continuar a viajar.

Angelina – Sermos como hoje, felizes.

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Cláudia R. Sampaio e Francisca Ramalho