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Álvaro, o restaurador de leques

Existem mitos e lendas que rodeiam o nascimento do leque. Uma delas conta que Cupido, o deus do amor, inebriado pela beleza de sua amada Psique, furtou uma asa de Zéfiro, o deus do vento, para refrescar a sua amada enquanto dormia. Desde a Antiguidade que as principais civilizações usam este objeto. Com utilidade de arma branca a objeto pessoal como símbolo de poder, sedução e luxo.

Foi no século XVI que os leques trazidos do Oriente se tornaram moda nas cortes europeias. A linguagem do leque como arma de sedução surge por volta do século XIX. Possibilitava às damas comunicar e relacionar-se com os cavalheiros. Penas, plumas, renda, ouro e madrepérola. Existe uma imensidão de materiais, técnicas, estilos e cores.

A nossa paixão por este objeto fascinante e misterioso levou-nos a sonhar com alguém que resgatasse esta nostalgia e ar da obscuridade.

O acaso ou Zéfiro levou-nos até ao atelier do restaurador enamorado por leques.

Álvaro Lucas, 58 anos, é um lisboeta que abdicou de uma profissão estável como bancário, para seguir o seu verdadeiro fado. Formou-se em Conservação e Restauro de Antiguidades e de forma autodidata foi-se especializando no restauro de leques. O restauro destas peças pode demorar semanas a ficar concluído. É um trabalho minucioso, que, sem espírito de sacrífico, paciência e amor, seria impraticável.

O Mestre Álvaro Lucas é reconhecido no mundo dos antiquários, como uma raridade de talento e conhecimento, no restauro de leques.

Uma história e nostalgia à portuguesa, com certeza, que ainda serve de alívio para os cálidos dias de verão.

Como foi o seu percurso profissional?

Fui bancário, por mal dos meus pecados, durante dez anos.

Não gostava desta profissão, era simplesmente uma questão monetária. Depois decidi tirar um curso noturno no Instituto de Artes e Ofícios, que pertencia à Fundação Ricardo Espírito Santo. Conciliava as duas coisas.

Chegou um determinado momento em que eu disse: “Não. O bancário acabou.”

Com 28 anos, abri um atelier na Madragoa com uma amiga minha. Lidávamos com restauros de antiguidades, fazíamos coisas pequenas. Fui introduzido no mundo das antiguidades pelos antiquários. Começaram a aparecer e ensinaram-me a fazer o restauro das peças. Embora eu já tivesse aprendido a técnica, não tinha experiência neste meio. Fui-me especializando na conservação e restauro de pintura.

Deixei a Madragoa e fui viver para Londres durante oito anos. Regressei a Lisboa e tive um atelier na Sé. No final dos anos 90 esta zona era um grande pólo de antiguidades.

Entretanto, este mercado começou a decair e saí da Sé. Estabeleci-me aqui, na zona da feira da Ladra, desde 2005.

Como é que apareceram os leques?

Tinha uma cliente que era antiquária e possuía muitos leques.

Como ela sabia sobre a minha paixão por leques – na altura já tinha mais de cem – encomendou-me um trabalho. Aprendi o restauro de forma autodidata.

Como surgiu essa paixão?

É daquelas coisas que não se explica. É como ter um gato ou um cão. Gosta-se. Fui colecionando leques. Ia comprando na Feira da Ladra, no tempo onde ainda os conseguíamos apanhar. Só colecionava leques chineses.

Não havia muitos especialistas nesta área. Em Portugal não existe um mercado como em Inglaterra, França e Espanha, que ainda têm a tradição viva.

Muitas vezes as pessoas diziam que restauravam leques, mas apareciam com eles todos esticadinhos dentro de uma moldura e todos tapados por trás. Eles não abriam nem fechavam.

Quando faço o restauro de um leque, ele tem que ficar funcional.

No tempo em que vivi em Londres visitei várias vezes o Museu de Leques em Greenwich.

Este contacto foi valioso e muito útil.

Quais são as fases elementares do processo de restauro de um leque?

Em primeiro lugar temos a limpeza do leque. Tirar os pós, fitas colas e papéis.

Se for uma coisa simples, se está só partido, consegue-se trabalhar apenas a parte danificada. Enfia-se uma fita de papel de arroz muito fininha que não interfira com a estrutura do leque e utiliza-se cola à base de amidos, farinha de arroz, algo fino, para não criar altura. Colamos, consolidamos, está feito.

Quando são leques que estão muito destruídos, abrimos e removemos tudo para restaurar e depois remontar. A parte final é a pintura, para podermos fazer a integração de uma palheta com a outra. Utilizam-se tintas como guaches e aguarelas, tudo à base de água, sem óleos e elementos artificiais. Muitas vezes existem algumas cores que tenho que reproduzir com pigmentos em pó.

Este trabalho pode demorar semanas a ficar concluído. É preciso muita atenção, cuidado, calma e serenidade. Os detalhes têm que ficar perfeitos. Não é um trabalho que pode ser feito de uma forma apressada.

 Qual é a origem dos leques?

Foram os chineses, em princípio, os primeiros a ter leques em termos comerciais.

Mas os egípcios e os mesopotâmios já tinham leques. Através da Companhia das Índias, dos portugueses, ingleses e holandeses foi feita uma grande divulgação dos leques na Europa. A partir daqui os próprios países aprenderam a técnica. As palhetas, a parte dura dos leques vinha da China, mas a pintura era executada em cada país.

Qual é a sensação de dar vida ao antigo?

Bem, o processo é chato mas o resultado final é lindíssimo (risos)

O processo por vezes é doloroso, especialmente quando começamos a trabalhar numa peça e de repente perdemo-la. Fica irrecuperável. É raro acontecer. Estas peças são muito frágeis e quando estão muito danificadas existe um risco elevado no processo de restauro.

Dar anos de vida a um leque, pelo menos mais 100 ou 200 anos, é uma sensação maravilhosa.

É interessante pensar que antigamente o leque tinha uma linguagem secreta, um código para as senhoras comunicarem com os homens.

Para mim, o leque é fascinante, primeiro pela estrutura, depois pela linguagem, a forma como se move, a sua história, o que representa. Tudo é fascinante.

Tem alguma história especial sobre um leque?

Comprei um leque de palhetas madrepérola na Feira da Ladra. Faltava-lhe uma palheta inteira. Em cima tinha uma inscrição que só se conseguia ler parcialmente: “Ellas”.

Fiquei a matutar no significado completo. Achei que era um leque francês. Um dia estava a restaurar o leque e aparece o meu irmão que é de Letras. Observou-o e diz-me que a inscrição era “Marquesa de Bellas”.

Uma amiga minha que estudava no Instituto de Artes e Ofícios, que era da área de madeiras, quando viu este leque perguntou-me onde o tinha arranjado… Disse-me que tinha brincado com ele em pequena. Era o leque da sua avó! Ela ainda é da família da Marquesa de Belas. Ficámos estupefactos!

Passei a chamar-lhe Marquesa e cada vez que o fazia ela dava-me um sopapo. [risos]

É a história mais pessoal e engraçada que tenho.

 Qual é o leque mais antigo que restaurou?

Um leque do século XVII. Era de marfim e foi um dos primeiros a ser exportado para a Europa da China.

Pode-se acompanhar a evolução da história com os leques. Estes são a representação da sociedade europeia ao longo dos séculos. Por exemplo, as pinturas dos leques europeus representavam cenas do quotidiano. A partir daqui conseguimos classificar móveis, vestimenta, entre outros elementos.

A partir do século XIX começaram a surgir leques com publicidade que ainda perduram. A Coca-Cola, agências de viagens, aviões, tudo o que fosse marca, tinha leques com publicidade.

Só as mulheres é que usavam leques?

Na corte francesa os homens usavam e ainda hoje em Espanha estes utilizam leques e normalmente a sua cor é preta.

França e Espanha continuam a inovar no mercado dos leques. Em Portugal, nunca houve uma fábrica de leques. Os leques feitos por artesãos portugueses são raríssimos. Havia muita coisa que vinha da China e Macau que depois era completada ou pintada em Portugal ou no Brasil.

A ideia dos leques como objeto de sedução é uma ideia do passado. Os leques são utilitários, têm uma função de bem-estar que é aliviar o calor.

“Fan Flirtation” (1908) – Pintura de Henry Gillard Glindoni

Restaurar é uma arte para todas as idades?

A partir de uma certa idade já não dá. Eu só vou durar mais cinco ou seis anos. Vou perder visão e paciência. Esta arte não pode ser forçada. Se o fazemos sai asneira.

Tem discípulos?

Não… É uma profissão que demora muitos anos a aprender. Não é uma coisa que é imediata, não há receitas. As pessoas têm que nascer com um dom próprio. É como o fado. Pode-se ter as técnicas todas mas se não se tem alma, é melhor mudar de profissão. No restauro é necessário ter um grande espírito de sacrifício. Quando saí do meu curso tive cinco anos a levar nas orelhas até conseguir. É complicado.

Nos programas dos cursos atuais de restauro existe muita teoria e pouca prática.

A prática aprende-se diariamente. Por exemplo, aqui no atelier temos trabalhos sempre diferentes. Temos que testar tudo, nenhum trabalho é igual ao anterior. Mudam-se técnicas, cores, materiais. Não tenho tempo, nem paciência para ensinar a alguém que não tem espírito de sacrifício. Acham “Ah, sou artista. Pronto, está feito.” Não é assim. Esta arte é de pica-miolos. Exige muita pesquisa, serenidade e concentração.

Quando decidi seguir esta arte a minha mãe achou que eu era maluco. Mas depois percebeu e agora sou o orgulho da família. Mas naquele tempo deixar a carreira de bancário para ser artista era um acto de loucura.

Como é que acha que a sociedade portuguesa encara as pessoas mais velhas?

Sinto que existe um enorme desrespeito perante os mais velhos.

Esquecem o seu papel. Estas pessoas são o cerne da nossa cultura. Têm ensinamentos únicos. É um absurdo não serem valorizados e aproveitados, pelas gerações mais novas.

 Um sonho…

Já fiz e conheci tanta coisa… Acho que não tenho grandes sonhos.

Só quero estar bem com a vida. Sempre fui concretizando os meus desejos.

O meu grande sonho foi ir ao Butão que é considerado o país mais feliz do mundo. Tive lá um mês e senti mesmo essa felicidade.

Já sei! Sonho com um bom gelado. [risos]

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