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A Mercearia da Estação

Recuamos a um tempo em que as mercearias eram um dos principais estabelecimentos comerciais das aldeias, vilas e cidades de Portugal. Conhecer as memórias de quem viveu a sua vida atrás de um balcão é conhecer um pedaço de história de uma época do antigamente. Carlota e Zé Maria, cabelos brancos e antigos merceeiros, são pura nostalgia à portuguesa, com certeza.

A Mercearia da Estação é um lugar que ainda existe, mas agora é habitado pelas memórias de quem o viveu. A nostalgia é vivida intensamente pelo casal Carlota e Zé Maria, antigos proprietários deste espaço comercial, que se localiza na aldeia de Moçâmedes, Vouzela (a 18 km de Viseu).

Carlota, de 79 anos, ainda preserva o olhar doce de menina sonhadora e relembra, como se fosse ontem, o seu sonho mais antigo. “Desde miúda que brincava como comerciante, enchia garrafas com água da ribeira para vender às minhas amigas, também vendia cartuchos de arroz e com as carumeiras fazia roupinhas, com as folhas de eucalipto fazia peixe frito, fazia tudo,” recorda emocionada.

Nas famílias de Carlota e Zé Maria não havia nenhuma tradição no universo das mercearias. Após o casamento decidiram dar início a um sonho acalentado, em particular pela menina Carlota, que desejava tornar-se vendedora. A aspiração de outrora nunca esmoreceu e na vida adulta tornou-se em realidade sonhada. A Mercearia da Estação abriu portas em 1958, há 56 anos atrás.

A mercearia situava-se “estrategicamente” na zona mais movimentada da aldeia, tinha por perto a igreja matriz e uma das estações ferroviárias da Linha do Vouga, tornando-se rapidamente num ponto de passagem obrigatório para residentes e visitantes.

Zé Maria, no alto dos seus 84 anos, conta-nos que vendiam um pouco de tudo: “Tínhamos uma enorme variedade de produtos, desde artigos de retrosaria, comida e bebidas, azeite, fogões, ferragens e gasolina. Chegámos a ter moagem, enfim, éramos o supermercado da altura”, acrescenta orgulhoso. Além das vendas, também recebiam encomendas, correio e mais tarde tiveram telefone público.

Nesta época, o acesso à educação era diminuto, o analfabetismo da população era uma realidade vigente. Instituiu-se então um ritual domingueiro na vida dos habitantes da aldeia de Moçâmedes: após a missa dominical, dirigiam-se à mercearia para levantar o correio e de seguida ouvir a leitura da correspondência, pela voz de Carlota, ou de uma das suas duas filhas.

O casal trabalhava arduamente, de segunda a domingo, mas era uma labuta vivida com alegria e sentido de missão. “Utilizávamos o sistema da caderneta, as pessoas só pagavam o que compravam no final do mês. Como havia muitas famílias com dificuldades, facilitávamos o pagamento, as pessoas de uma forma geral eram honestas, pagavam sempre as suas dívidas”, diz Zé Maria.

As histórias da mercearia estão intimamente ligadas às chegadas e partidas da estação de Moçâmedes. O comboio a vapor apelidado carinhosamente de “Vouguinha” transportava alegrias, tristezas e sonhos, era o motor de todas as emoções.

“Assistíamos às despedidas das pessoas que emigravam para o Brasil em busca de uma vida melhor, e quando os soldados partiam para a guerra colonial, era aqui que se davam os últimos abraços, era uma choradeira pegada. Como recebíamos na mercearia os telegramas da população, infelizmente também éramos nós, que transmitíamos as notícias aos familiares, em caso de falecimento”, relembra Zé Maria.

Outra memória marcante passa pelas despedidas das raparigas que iam para Lisboa trabalhar como criadas de servir. Memórias distantes que nos reportam ao quotidiano do período do Estado Novo.

Carlota descreve com entusiamo os dias de roda viva: “Tínhamos várias máquinas de petróleo para fazer a comida, nos dias de feira preparava pratinhos de dobrada que servia ao balcão. Também era habitual servir sopa aos maquinistas que paravam na estação – como tinham pouco tempo de paragem, quando estavam prestes a chegar faziam soar um apito especial, assim já sabíamos que tínhamos de servir a refeição.”

O fecho da mercearia confunde-se com o fim da Linha do Vouga, que tinha como alcunha “Linha do Vale das Voltas”. O troço ferroviário entre Sernada do Vouga e Viseu encerrou no dia 1 de Janeiro de 1990. É a partir deste dia que a Mercearia da Estação deixa de assistir às chegadas e partidas dos seus fregueses. É o fim de uma era.

A mercearia fechou o amor mantém-se

Regressando ao presente, encontramos o casal a gozar tranquilamente a sua reforma. Zé Maria é um entusiasta da agricultura, passa os dias nos campos de cultivo. Carlota, como tem tido uma saúde mais frágil, dedica-se aos pequenos afazeres domésticos. É em Carlota que se sente especialmente a combustão da saudade: “Se tivesse saúde gostava de poder continuar a trabalhar até às tantas, ainda tenho saudades desta vida, uma vida muito bonita, de que eu gostava muito.”

Envelhecer é um lugar dado a nostalgias. Mais do que viver no passado é regressar a um tempo em que se foi feliz.
Os merceeiros, Carlota e Zé Maria, foram definitivamente felizes nas suas vidas atrás de um balcão.
Nostalgia à portuguesa, com certeza, e esta tem cheiro a fuligem.

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